Projeto de lei pode barrar construção de hidrelétricas no rio das Garças

Publicado originalmente em  BotoBlog 

A Frente Popular Rios Vivos está propondo um projeto de lei de iniciativa popular que impede a construção de centrais hidrelétricas no curso do rio das Garças e torna o afluente do Araguaia patrimônio natural, histórico, cultural e turístico de Barra do Garças. O projeto de lei será apresentado à Câmara de Vereadores do município. A ideia surgiu depois que o projeto de instalação da Usina Hidrelétrica Boaventura no rio das Garças entrou em fase de licenciamento e de consulta popular. A Frente Popular Rios Vivos, movimento organizado composto por voluntários da sociedade civil, busca o apoio da população e das instâncias governamentais para barrar o empreendimento que pode afetar negativamente a fauna, a flora  e a população da região.

 Um projeto de iniciativa popular somente é submetido à votação na Câmara Municipal se assinado por 5% do eleitorado do município. Para alcançar esse objetivo,  a Frente está  buscando assinaturas  da população, em um abaixo-assinado, em eventos e pontos comerciais que apoiam a iniciativa. Segundo os voluntários, a Frente já conseguiu a metade  das assinaturas necessárias,  em dois meses de atuação.

 De acordo com Mirian Francisca Martins, membro da Frente, a população tem aplaudido a proposta de barrar a instalação de usinas, mas os voluntários tem enfrentado resistência de pessoas que se mostram receosas em informar o número do título de eleitor. “Esse registro é fundamental para provar que o cidadão é eleitor do município e validar a assinatura. Sem ele, o abaixo-assinado não pode se tornar lei”, explicou Miriam.

 Além da proposta do projeto de lei, o movimento Frente Popular Rios Vivos, entregou, na última terça-feira (08/10), à Câmara de Barra do Garças uma moção de repúdio à instalação da Usina Hidrelétrica Boaventura no rio das Garças. O documento foi votado e aceito por unanimidade pelos vereadores e agora segue para a Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso e para o Ministério Público (MP) Estadual e Federal. Uma moção parecida também foi apresentada na Câmara de Aragarças e será encaminhada ao legislativo de Pontal do Araguaia, na próxima segunda-feira.

 A moção pede o apoio da Câmara para impedir a instalação da usina Boaventura  nos rio das Garças e declara repúdio e preocupação com os empreendimentos hidrelétricos previstos para toda a bacia do Alto e Médio Araguaia. A Frente também solicita que a Câmara Municipal de Barra do Garças disponibilize um local no prédio do órgão, identificado com o banner do movimento, para que ocorra a coleta de assinaturas do projeto de lei. Atualmente, pontos fixos de coleta de assinaturas são as empresas: Moreira Camisetas, Panta Rei Camisetaria, Souza Acessórios, Gráfica Rápida e Rita Turra Confeitaria.

 O documento propõe a constituição de uma equipe de especialistas, voluntários da sociedade civil, para dar consultoria ao legislativo na elaboração de projetos de conservação ambiental.

Banner que identifica o local de coleta de assinaturas (imagem: Frente Popular Rios Vivos)

Banner que identifica o local de coleta de assinaturas (imagem: Frente Popular Rios Vivos)

Mobilização

A mobilização em prol da proteção de um dos principais afluentes do rio Araguaia, o rio das Garças, se intensificou em agosto, quando a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) tornou conhecido o projeto de instalação da Hidrelétrica Boaventura, através de audiências públicas realizadas em Barra do Garças, Pontal do Araguaia e General Carneiro. Segundo o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), esses municípios receberão os impactos da obra e do funcionamento da usina. Ainda em fase de licenciamento, o empreendimento foi avaliado por especialistas da região, que apontaram falhas no estudo e relatório ambiental, apresentados pela empresa responsável pela obra, a Energias Complementares do Brasil (ECBrasil).

 Especialistas já se manifestaram publicamente sobre o assunto, como o Botoblog publicou. A professora da UFMT Marcia Cristina Pascotto, especialista em aves, afirma que haverá perda de diversidade entre as espécies de pássaros: “com o enchimento do reservatório vamos perder habitat”. A bióloga, Sinara Cristina de Moraes, questiona o fato de o estudo de impacto não ter citado as espécies transmissoras de leishmanioses presentes na área abrangida. “Cientificamente é provado que quando você faz uma interferência ambiental como essa a fauna de insetos vetores aumenta.” Autoridades também questionaram a realização de audiências públicas antes da conclusão dos estudos específicos da Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

 Mirian Martins, representante da Frente Popular Rios Vivos, afirma que o grupo considera que  o estudo e o relatório de impacto ambiental estão incompletos e com pontos questionáveis. Ela ressalta que até os benefícios que o empreendimento promete trazer são passíveis a questionamentos. “A geração de emprego de uma construção como essa é passageira e, depois de terminada a empreitada, ficam os problemas sociais.” Segundo Mirian, o grupo está se mobilizando para informar à população que os prejuízos ao meio ambiente são maiores que os benefícios.

A Frente Popular

 A Frente Popular Rios Vivos nasceu da militância de integrantes da sociedade de civil, entre professores, servidores públicos, estudantes, pequenos empresários e integrantes de organizações não governamentais, preocupados em proteger os rios da região de Barra do Garças. A primeira evidência da organização do grupo foi em 2015, com a realização do evento Cuidando das Nossas Águas, que buscava conscientizar a população  da necessidade de preservação dos rios, córregos e cachoeiras da região. O evento realizou oficinas, palestras e a atividade de coleta de lixo de um trecho do rio Araguaia, retirando três toneladas de resíduos sólidos das margens.

 Em 2016, com o surgimento da proposta de construção de hidrelétrica no rio das Garças, o grupo se fortaleceu e está desenvolvendo ações de repudio a esse empreendimento. Integram o movimento  especialistas de diversas áreas, que estão avaliando o projeto e buscando conscientizar a população. Hoje, em média, 15 pessoas participam efetivamente do grupo, traçando estratégias contra a usina em fase de licenciamento e contras as outras 13 centrais hidrelétricas que também estão previstas para o curso do rio das Garças.

 Imagem de capa: Kayc Alves

III Festival Juruena Vivo promove manifesto para constituição de Comitê de Bacia Hidrográfica

Por Sucena Shkrada Resk/ICV

Mais de 170 pessoas, entre representantes de povos indígenas do Mato Grosso e do Pará, de agricultores familiares, de organizações não-governamentais (ONGs) e do Ministério Público Estadual (MPE), além de acadêmicos e simpatizantes da defesa dos direitos de populações vulneráveis a empreendimentos hidrelétricos, se reuniram em Juara, Mato Grosso, na terceira edição do Festival Juruena Vivo, realizado do dia 27 a 30 de outubro. Um dos principais resultados do encontro foi a redação de um manifesto da bacia do Tapajós, que exige das Secretarias Estaduais de Meio Ambiente (Sema) e da Agência Nacional de Águas (ANA) a implantação do Comitê de Bacia Hidrográfica dos rios Juruena/Teles Pires/Tapajós de maneira integrada, incluindo a população atingida.

Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV

Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV

Hoje a pressão sobre os rios dessa região é grande. Só na região da Bacia do Juruena, em Mato Grosso, estão previstos 114 empreendimentos hidrelétricos (entre Pequenas Centrais Hidrelétricas – PCHs e Usinas – UHEs), que afetarão 10 povos indígenas. Na Bacia do Teles Pires, estão em funcionamento quatro usinas no próprio rio, além de uma no rio Apiacás, e outras ainda em fase de planejamento. “A partir das experiências vividas no Teles Pires, a população da região da Bacia do Juruena tem condições de intervir na fase de planejamento”, analisa João Andrade, coordenador do Núcleo de Redes Socioambientais, do Instituto Centro de Vida (ICV), que integra a Rede Juruena Vivo e o Fórum Teles Pires. “Até a licença prévia é possível fazer alguma coisa, nas outras fases é mais difícil reverter o processo”, explica Andreia Fanzeres, coordenadora do Programa de Direitos Indígenas da Operação Amazônia Nativa (Opan) e uma das responsáveis pela organização do evento.

A mobilização em Juara também ganhou as ruas do município. No dia 29, uma caminhada de protesto também chamou a atenção da população local. A insatisfação não era só relacionada às questões de injustiça socioambiental em curso mas a temas polêmicos no âmbito nacional, como a aprovação do Projeto de Emenda à Constituição (PEC) 241.

Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV

Foto: Sucena Shkrada Resk/ICV

“Sawê!”, grito de luta indígena foi ecoado por diversas vezes, durante o festival. Depoimentos de lideranças indígenas (Apiaká-Kayabi, Munduruku, Manoki, Myky, Nambikwara, Rikbaktsa) ribeirinhos e de agricultores familiares da região de Fontanilhas e de Cotriguaçu, em Mato Grosso, foram marcadas por manifestações de cooperação. Atingidos de diferentes localidades não mediram esforços para participar. A comitiva do Pará levou 26 horas para chegar até a Juara para prestar apoio aos atingidos de Mato Grosso, que também fazem parte da Bacia do Tapajós. Foi um gesto de solidariedade, segundo seus integrantes, já que representantes mato-grossenses também haviam feito o longo trajeto para participar da 2ª Caravana em Defesa dos Povos do Rio Tapajós, em setembro, em Itaituba. Representantes do Movimento Xingu Vivo para Sempre também compuseram a mobilização.

 “É muito triste o que está acontecendo no Teles Pires … Nossa preocupação é com o futuro de nossos filhos e netos. Somos guerreiros e fortes, não chegamos com armas pesadas mas com o nosso direito que está na Constituição”, disse Cândido Munduruku, com voz embargada. Seu depoimento emocionou parentes de diferentes povos, que manifestaram a solidariedade em suas falas. A necessidade do apoio da academia e da formação acadêmica de mais indígenas para construir argumentos na luta pelos direitos também foi destacada por Marcelo Munduruku e por Erivan Apiaká, entre outros.

“Nossos povos estão sendo atingidos. O Projeto Básico Ambiental-Componente Indígena (PBA-CI) não está sendo cumprido pela UHE Teles Pires. Se em 500 anos não conseguiram acabar com a gente, agora que parte de nós sabe ler e escrever, vamos defender nossos direitos com os jovens, através da caneta e papel. Nossos filhos estão estudando para defender o meio ambiente e de outro lado, o governo está matando nossos rios e peixes”, desabafou Erivan.

“Existe um país multicultural a ser respeitado”, disse. Juarez Rikbakta citou a importância da união do seu povo nas três terras indígenas (Escondido, Erikbata e Japuíra), apesar das distâncias geográficas, com os demais parentes de outras etnias.

A presença feminina indígena também se destacou no encontro. “Vamos lutar junto com nossos parentes. Nascemos e crescemos nestas áreas”, disse Elizete Rikbata. E Cesarina Kaiabi frisou a importância do respeito à ancestralidade.

Uma das narrativas mais repetidas no festival foi com relação à experiência cotidiana dos atingidos por barragens de presenciar a diminuição de peixes ao longo dos rios onde estão empreendimentos hidrelétricos já em funcionamento, como também a falta de respeito aos conhecimentos e patrimônios tradicionais e ancestrais. “Os anciãos de nossos povos são a biblioteca de nossa história”, reforçando os valores imateriais que também estão sendo prejudicados com a falta de escuta nos processos de implementação dos empreendimentos. Agricultores familiares mencionaram a dificuldade quanto a ter seus direitos respeitados e a pressão dos processos de desafetação.

No contexto de usinas já instaladas e de projetos de dezenas em curso, o combate à violação de direitos deverá ser uma das bandeiras da recém-criada Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Mato Grosso (Fepoimt), segundo um de seus conselheiros, o indígena Silvano Chue Muquissai. A proposta é que o espaço de ocupação se consolide da esfera municipal à federal.

Especialistas de organizações não governamentais (ONGs), da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Ministério Público Estadual (MPE-MT) destacaram as falhas nas fases de licenciamento, na avaliação de estudos ambientais integrados, dos componentes indígenas, como também a falta de discussão e avaliação de impactos acumulativos das barragens com outros tipos de empreendimentos, entre eles, de mineração e hidrovias associados, e o avanço do agronegócios, com uso de agrotóxicos que atingem os rios. “É importante lembrar que o rio é um ecossistema”, afirmou Brent Millikan, do International Rivers – Brasil, um dos organizadores do Ocekadi.

Outros aspectos levantados foram a pressão no Congresso Nacional, com projetos de lei que flexibilizam o licenciamento ambiental e a tramitação do atual Código de Mineração, além dos reflexos das construções dos empreendimentos nos indicadores de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) locais e a falta de transparência com relação à aplicação dos recursos provenientes da contrapartida das empresas hidrelétricas aos municípios. A discussão sobre novos modelos na matriz elétrica nacional, com menos impactos e geração de passivos socioambientais, permeou a discussão.

Lançamentos e debates

Durante a programação, o público se sensibilizou com a apresentação do vídeo documentário “O Complexo”, sobre os efeitos de empreendimentos na Bacia do Teles Pires, com roteiro de João Andrade e Thiago Foresti, como também de “Belo Monte, depois da Inundação”, produção da International Rivers, do Amazon Watch e de Todd Southgate. Ao mesmo tempo os participantes do Festival se familiarizam com os problemas em comum que envolvem populações atingidas dos estados do MT, PA e AM, descrita no livro Ocekadi: Hidrelétricas, Conflitos Socioambientais e Resistência na Bacia do Tapajós.

“O Festival nos possibilitou momentos que nos envolve e nos aponta que o compromisso e determinação de estar com os Povos Originários é um privilegio que somente temos que partilhar. Sentir a essência, mergulhar e não deixar que a financeirização e o econômico nos consuma”, disse a irmã Lourdes Duarte, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) – MT.

Concurso de reportagem anuncia premiados

No III Festival Juruena Vivo, também foram anunciados os premiados do I Concurso de Reportagem da Rede Juruena Vivo, que teve como tema “Hidrelétricas e Direitos Humanos”.

Na categoria impresso, em 1º lugar ficaram as jornalistas Keka Wernek e Natália Araújo, com a reportagem “Abundante, Juruena sobre com o impacto da cobiça”, no Jornal A Gazeta; em 2º lugar, Elani dos Anjos Lobato, do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de MT (Sintep/MT)-Juína, com “Os Impactos das hidrelétricas na Saúde Indígena, na Folha do Vale. Já na categoria on line, em 1ª colocação, Luana Soutos, da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Mato Grosso (Adufmat-Ssind), com “Projetos de hidrelétricas ameaçam história e vida da população às margens do rio Juruena”; Desirêe Galvão, com “Atingidos por barragem construída há 16 anos em MT lutam por indenização”, do G1 MT, e em 3º, Mequiel  Zacarias Ferreira, com “Para que direitos humanos?”, na Rádio Progresso 640 on line.

O III Festival Juruena Vivo apresentou também manifestações culturais musicais e artesanato indígena e regional, como de grupos de mulheres do município de Cotriguaçu, do noroeste mato-grossense. O encontro foi realizado em parceria com a Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat), que promoveu a V Mostra Científica Cultural do Vale do Arinos, com apoio da Capes.

Confira alguns registros do evento.

O que aprendemos com Belo Monte? Dor e luta depois da inundação

Um filme inédito sobre a tragédia promovida pelo complexo hidrelétrico Belo Monte no Pará foi exibido no III Festival Juruena Vivo e emocionou indígenas e ribeirinhas. Roda de conversa recebeu moradoras da região.

Por Paulo Motoryn / Fotos de João Miranda

“O filme que vocês acabaram de assistir não conta uma historia. Ele conta uma guerra”. Foi com essas palavras que Raimunda Silva, moradora de Altamira (PA), cidade impactada pela construção do complexo hidrelétrico Belo Monte, abriu uma roda de conversa sobre o filme “Belo Monte depois da inundação”.

O documentário foi exibido pela primeira vez publicamente na manhã desta sexta-feira (28), no segundo dia de atividades do III Festival Juruena Vivo, que está acontecendo em Juara (MT). A gravação acompanhou desde 2012 o impacto do megaprojeto nas comunidades indígenas e na cidade de Altamira (PA).

Foto: João Miranda/Revista VaiDáPé

Participantes do Festival Juruena Vivo se emocionaram com o documentário. – Foto: João Miranda/Revista VaiDáPé

Raimunda é uma das personagens centrais – e reais – do documentário. Bastante emocionada, ela contou sobre a vida hoje na região: “Não vivemos uma vida digna. Nossas casas foram demolidas, a pesca já não é mais possível porque não tem peixe e os serviços de saúde de Altamira são cada vez mais precários”.

“Viver não é o que estamos fazendo. Belo Monte deixou uma legião de mortos-vivos em Altamira. Gente sem casa, sem renda, sem nenhuma compensação, nem alternativa. As mulheres sofrem muito”, disse Raimunda, que assistiu ao filme ao lado de Daniela Silva, também moradora de Altamira e integrante do movimento Xingu Vivo para Sempre.

Daniela Silva do Movimento Xingu Vivo para Sempre. Foto: João Miranda/Revista VaiDáPé

Daniela Silva do Movimento Xingu Vivo para Sempre. Foto: João Miranda/Revista VaiDáPé

Daniela, ainda na quinta-feira (27), na abertura do Festival, fez questão de relembrar: “Apesar de inaugurada e com os paredões erguidos, com o rio e as populações afetadas, Belo Monte não é um fato consumado. Há muito ainda para fazer e lutar”. Daniela e Raimunda vieram à Juara juntas e, como várias pessoas da plateia, choraram juntas pela tragédia que virou filme.

Em dezembro, o filme vai estrear oficialmente em Brasília (DF) com a presença de representantes da região, na tentativa de sensibilizar o poder público sobre a violação de direitos humanos na construção do complexo hidrelétrico. A locução do documentário é do ator Marcos Palmeira, presença confirmada no lançamento oficial do filme em Brasília.

Um representante do povo Munduruku, Aldemar, ao lado da tradutora Gelma, fez reflexões interessantes sobre o processo de desenvolvimento no Brasil. “O passado do genocídio, da exploração, é o nosso presente. O governo olha para os seus pés, mas não olha para a distância que o país tem que caminhar. Não queremos barragem. Queremos vida”.

João Andrade, representando o Fórum Teles Pires e a ONG Instituto de Centro de Vida, também contribuiu com o debate: “Existem experiências de mobilização, de luta, que mostram que é possível barrar projetos, como já aconteceu no Tapajós, como pode acontecer com vários outros empreendimentos como esses que podem vir por aí”, relatou.

 

O grito pela sobrevivência dos povos que vivem às margens do Rio Teles Pires

A exploração do potencial de geração de energia hidrelétrica do rio Teles Pires representa uma enorme ameaça às populações que sobrevivem diretamente da biodiversidade do rios e suas matas: “O governo não vê que somos humanos”, diz o povo Munduruku.

Por Paulo Motoryn / Fotos de João Miranda

“Tá mudando muito. Cada dia que passa, muda mais e mais. As florestas e os rios são as nossas vidas, isso não pode acontecer”. A frase foi de Cândido, representante do povo Munduruku, durante um debate que sucedeu a exibição do filme “Complexo”, que retrata o modo de vida de vários povos que vivem às margens do Rio Teles Pires, na sub-bacia do Rio Tapajós.

Cândido Munduruku ilustrou perfeitamente aquilo que é mostrado no documentário: a exploração do potencial de geração de energia hidrelétrica do rio Teles Pires representa uma enorme ameaça às populações que sobrevivem diretamente da biodiversidade dos rios e matas: “O governo não vê que somos humanos”, concluiu Cândido, com olhos lacrimejando.

A revolta dos Munduruku, na opinião de Francisco Machado, representante do Ministério Público Estadual do Mato Grosso (MPE-MT) presente no debate, se justifica justamente pela atuação irresponsável dos governos: “Em nome do povo, os idiotas do governo fazem canalhices, cometem absurdos. Tudo em nosso nome”.

O cacique Manoel Kaninxi, do povo Manoki, fez um apelo: “Os brancos, os não-índios, todos precisam somar na luta pela preservação do rio Teles Pires. Não podemos gritar sozinhos. Estamos lutando muito e precisamos de ajuda. É o momento de barrar hidrelétricas e madeireiras. Brancos, nos escutem”.

Foto: João Miranda/Revista VaiDaPé

Foto: João Miranda/Revista VaiDaPé

O professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), Maurício Torres, fez questão de relembrar uma mobilização indígena que deu conta de frear um grande projeto. “A construção do Complexo Hidrelétrico São Luís do Tapajós foi suspensa após um grande ato. Os Munduruku foram até a terra dos Kayapó, lá em Belo Monte, para interromper a maior obra do país até que o projeto que os afetaria fosse cancelado. Deu certo”, comemorou.

Brent Millikan, da ONG International Rivers, ponderou: “É hora dos governos perceberem que não se pode definir a localidade de uma usina hidrelétrica apenas pelo seu potencial energético. É preciso medir os impactos e respeitar os povos”. No que depender do grito dos povos do Teles Pires, vai ter luta. Por respeito e, principalmente, pela vida.

Fonte: Revista VaiDaPé

‘O Brasil em guerra contra seus povos’: a abertura do Festival Juruena Vivo

Na cerimônia de abertura, um debate marcou o início do III Festival Juruena Vivo. Experiências de resistência em Belo Monte e no Tapajós inspiram luta no Mato Grosso.

Por Paulo Motoryn / Fotos de João Miranda

Na noite desta quinta-feira (27), a abertura do III Festival Juruena Vivo deu conta de mostrar a diversidade cultural presente na cidade de Juara (MT) para o evento. O tema da mesa era provocativo: rios e redes. O objetivo proposto para o debate foi a construção de alianças em defesa da vida, do rio e dos povos da Amazônia.

Foto: João Miranda

Foto: João Miranda

A co-fundadora da Rede Juruena Vivo e membro da OPAN (Operação Amazônia Nativa), Andrea Jakubasko, saudou cada um dos povos indígenas presentes: Manoki, Nambikwara, Myky, Rikbatsa, Munduruku, Apiaká-Kayabi.

Na mesa, Daniela Silva, moradora de Altamira (PA), do movimento Xingu Para Sempre, relatou a experiência de resistência contra os impactos do complexo hidrelétrico de Belo Monte.

Foto: João Miranda

Foto: João Miranda

“É preciso denunciar o que aconteceu em Altamira: um crime legitimado pelo Estado brasileiro, um crime que viola os direitos de populações indígenas e ribeirinhas. Volta todos os direitos humanos”, contou.

Após ler uma poesia chamada “Carta de Mariana à Amazônia”, ela disse: “Os projetos vêm para destruir a vida das populações. São predatórios e desconsideram o modo de vida dos povos do rio”.

Outro convidado que dividiu as experiências de defesa e proteção da água no Pará foi Edilberto Sena, morador de Santarém e integrante do Movimento Tapajós Vivo: “Viajamos em 28 pessoas por mais de 20 horas para nos unir com vocês”.

Foto: João Miranda

Foto: João Miranda

“Eu gostaria de insistir aos moradores de Juara, aos parentes indígenas, às comunidades, que estreitemos o companheirismo na defesa do nosso território, dos nossos rios. Contem conosco”, afirmou.

“Estamos vivendo uma guerra no Brasil. Literalmente, é a guerra do capital contra os seres humanos. Uma guerra contra os povos do Brasil. Os sinais de guerra estão aparecendo cada vez mais”, concluiu Edilberto.

Lisanil Patrocínio, professora da UNEMAT (Universidade Estadual de Mato Grosso), citou o pensador Boaventura Sousa Santos para dizer que as juventudes e as mulheres serão protagonistas da luta ambiental.

O diretor do campus da UNEMAT em Juara, Gildete Evangelista, disse ser uma honra para a cidade a presença de tantos povos diferentes e colocou as instalações da universidade a serviço do encontro.

Depois do debate, indígenas Kayabi realizaram uma apresentação de dança tradicional de sua etnia e encerraram o primeiro dia do III Festival Juruena Vivo.

Indígenas Kayabi se apresentam na abertura do Festival. Foto: João Miranda

Indígenas Kayabi se apresentam na abertura do Festival. Foto: João Miranda

Após Cotriguaçu em 2014 e Juína em 2015, é a vez de Juara sentir a energia de resistência e cultura em defesa da Amazônia: e foi apenas o primeiro dia de Festival.

Fonte: Revista VaiDáPé

III Festival Juruena Vivo: cultura e resistência no coração do Brasil

Entre os dias 27 e 30 de outubro, os 30.000 habitantes da cidade de Juara (MT) recebem indígenas e movimentos sociais da Bacia do Juruena em luta pela preservação de seus territórios e modos de vida

Por Paulo Motoryn / Fotos: João Miranda

Começou nesta quinta-feira (27), o III Festival Juruena Vivo na cidade de Juara (MT). O evento celebra a diversidade cultural e ambiental do Rio Juruena, que cada vez mais tem sua bacia impactada por interesses no potencial hidrelétrico da região.

A sub-bacia do Juruena abrange 190.931 km2 e é composta por dezenas de rios. Só o Rio Juruena é responsável por 70% das águas que formam o Tapajós no estado do Mato Grosso. Dez diferentes povos indígenas lutam para preservar seu modo de vida na Bacia, como os Manoki, Nambikwara, Myky e Rikbatsa, que têm representantes no Festival.

Foto: João Miranda

Foto: João Miranda

O evento tem objetivo de debater a atuação da população indígena e a participação popular nas tomadas de decisão sobre o futuro dos rios Juruena, Tapajós e Teles Pires.

Os convidados vêm de diversas regiões da Amazônia Legal. Estão presentes, por exemplo, moradores de Altamira, cidade impactada pela construção do complexo hidrelétrico de Belo Monte. A ideia é que possam compartilhar experiências de resistência aos megaprojetos.

Foto: João Miranda

Foto: João Miranda

Além dos paineis temáticos e debates, o III Festival Juruena Vivo trará uma série de manifestações e apresentações culturais. A programação conta com apresentação de bandas e grupos da região e do Centro-Oeste.

O violeiro Victor Batista mora em Pirenópolis (GO) e é uma das atrações do evento. Seu trabalho mais recente está no disco “Manchete do Tico-Tico”, em que canta as belezas e a importância de preservação da diversidade do Cerrado.

“A música tem a função de levar uma mensagem. Desde as senzalas, os escravos cantavam seus lamentos e faziam a crítica pela poesia. É o que vai acontecer aqui no Festival: interação, troca e informação sobre o Juruena”, disse Victor à Vaidapé.

Foto: João Miranda

Foto: João Miranda

Fonte: Revista VaiDaPé

Nos rios de Mato Grosso: Política Energética e Energia Solar

Por que em um país como o Brasil, que tem sol durante todo o ano, a energia solar não tem espaço na matriz energética? Por que não aproveitamos essa fonte inesgotável e gratuita de energia? Em Mato Grosso, por exemplo, existe apenas uma usina de energia solar. Em nosso ultimo programa, discutiremos a importância da energia solar como fonte de energia realmente renovável e os motivos da ausência de investimento nesta fonte.

Os programas foram produzidos pela jornalista Juliana Arini e serão disponibilizados gratuitamente aqui em nosso blog. Nossa intenção é que os programas ajudem as pessoas da região a refletirem e discutirem sobre estes importantes temas.

Os programas podem ser replicados livremente. Se você e/ou sua comunidade tiver interesse em receber todos os programas, entre em contato conosco no redejuruenavivo@gmail.com.

Para fazer download do Programa Nos Rios de Mato Grosso 13Política Energética e Energia Solar