Índio Presente: a série

Confira a entrevista com o diretor Sérgio Lobato

Povo Enawenê-nawê, Mato Grosso – Cedida por Sérgio Lobato/OPAN

A série Índio Presente estreou no canal Futura no dia 18 de junho de 2018 e tem os 13 episódios disponíveis online no Futura Play. Sérgio Lobato, que dirigiu o trabalho com Bruno Villela, conta para a OPAN o que inspirou a produção e revela detalhes do processo de filmagem. Os episódios foram produzidos a partir da visita a 21 povos, de 11 estados brasileiros. Em cada um deles é levado ao público um equívoco ou preconceito que cotidianamente é expressado em conversas. “Os índios estão perdendo a cultura” (episódio 2) ou “a sociedade indígena é atrasada” (episódio 11) são alguns deles. Sérgio, além de videomaker, é antropólogo visual e indigenista. Dirigiu o curta metragem Mopo’i – O menino Manoki (2011) e trabalhou com a formação audiovisual do povo Araweté, no estado do Pará (2015). Confira abaixo a entrevista.

1.Sérgio, o livro “O índio brasileiro e a Revolução Francesa”, de Afonso Arinos, foi uma fonte de inspiração para a criação da série. Qual a conexão entre a obra e Índio Presente?

O interessante é que a série busca romper com os estereótipos do senso comum e a gente fica com um mal-estar quando observa exemplos muitos primários sobre os povos indígenas… Como o que o Ailton Krenak cita do Ulisses Guimarães, que os exemplos que a gente pode dar da contribuição dos povos indígenas no mundo é a jabuticaba: “o índio cuidou da jabuticaba” ou os nomes dos locais das cidades e espécies brasileiras… [Estes destaques] ainda são muito pouco. Este livro, mostra uma reflexão sobre cidadania, sobre a forma de relação com o outro. Não de dominação, mas de respeito com o próximo. É uma visão muito positiva em relação aos povos indígenas na medida em que [relata] a aspiração para a construção de uma sociedade democrática a partir do conhecimento de relações sociais dos povos indígenas, colocando a contribuição do índio no Brasil e no mundo em outro patamar. Neste livro, ele coloca o indígena como sujeito em que as relações de sociabilização são extremamente evoluídas. A liberdade, igualdade e fraternidade se encontram dentro de uma sociedade indígena. E que, naquela época da Revolução Francesa, o Brasil inspirar isso realmente é um fortalecimento da visão do índio. Não como aquele índio do passado e sim aquele índio vivo, que está presente, mostrando para a gente uma evolução de democracia, de respeito ao próximo, das decisões a serem tomadas no pátio da aldeia, em consenso.

  1. E quais outras influencias te impulsionaram a criar esta série?

No ambiente cotidiano familiar e de amigos, constantemente vemos determinados tipos de discursos prontos, construídos no senso comum de muita discriminação dos índios. Principalmente na produção audiovisual… Quando a gente mostrava algum produto audiovisual com algum povo indígena ou feito por povos indígenas, eu já escutei coisas como: “os índios para conseguir fazer coisas no audiovisual, vão demorar 100 anos”. Uma ideia completamente evolucionista e equivocada, que pensa a produção com povos indígenas e para povos indígenas como algo de uma categoria inferior.

Tem aquele conceito de quarto mundo, que eu acho equivocado, de colocar em escala sociedades de primeiro, segundo e terceiro mundo. Que seria o Brasil em desenvolvimento e as sociedades indígenas como em quarto mundo de uma maneira pejorativa. Um discurso que coloca as sociedades indígenas como uma sociedade que não consegue dialogar com os outros mundos. Acho que isso foi o que mais motivou a gente a mostrar que os povos indígenas estão no gene do brasileiro, estão vivos e estão atuando em todas as áreas. A gente quis mostrar o índio mais abrangente, que é atuante na sociedade e tentar diminuir esta visão estereotipada do índio hoje.

Indígena da etnia Tuyuka, Amazonas – Cedida por Sérgio Lobato/OPAN

  1. A série está organizada em equívocos, preconceitos de nós não índios para com os povos indígenas como, por exemplo, “todos índios falam Tupi” ou “os índios são preguiçosos”. Como vocês identificaram estes preconceitos?

A série surgiu do material “Cinco ideias equivocadas sobre os Índios”, de José Ribamar Bessa Freire, professor da Faculdade de Educação da UERJ e coordenador, desde 1992, do Programa de Estudos dos Povos Indígenas. A gente leu este material antes de produzir a série e vimos que se adaptássemos à demanda das tvs públicas, de produção de temática indígena, ela estaria dividia em 13 episódios. Então ampliamos um pouco as questões que o José Ribamar Bessa Freire já pensava e foi construída a série.

  1. Existem outros equívocos a serem explorados?

Tínhamos outras questões sobre arte. Existe um pré-conceito que arte indígena é utilitarista, que ela não tem o mesmo grau de diálogo em relação a outros tipos de arte. A gente tentou fazer um episódio sobre esta questão, mas acabamos ficando só com 13 episódios devido às exigências do edital.

  1. Algum destes equívocos foram anunciados pelos próprios povos indígenas?

Este é o maior desafio, quando a discriminação está incutida dentro da própria sociedade indígena. Quando a gente estava fazendo o episódio de línguas, lá nos Paumari, uma senhora veio dar um exemplo do cotidiano dela. Ela gosta de falar o idioma em sua própria casa e chegou a neta dela e questionou: “vó, por que você não fala certo? Por que você fala errado, fala esquisito?”. Ela respondeu: “Não, eu não falo errado, você é quem fala esquisito. Eu falo meu idioma Paumari. Eu estou na minha casa”. Então, na medida em que você é discriminado dentro da sua própria casa, dentro da sua própria família em atuar nos seus costumes e tradições… Você vê que o preconceito é muito poderoso. Isso está muito longe de uma sociedade igualitária e que respeita as suas singularidades. O Brasil é um país com 180 línguas. O IBGE se equivocou dizendo que eram 274 línguas, não é isso tudo. Ele coloca Myky e Manoki como línguas diferentes, mas na verdade são a mesma língua. Mas o Brasil é um mundo, e está muito longe da gente conseguir respeitar estas diferenças.

  1. Ainda que a série se proponha a desmistificar o indígena para os não indígenas, como foi o seu processo, enquanto homem branco, de construção de representação dos sujeitos indígenas?

 Eu me vejo como uma pessoa que transita pelos mundos, como qualquer ser humano. Nós seres humanos temos a capacidade de sentir e viver as questões do outro e reconhecer que as questões do outro também são as nossas questões. É uma questão de identidade, da gente realmente se identificar com determinadas questões dos povos indígenas. Essas questões dos povos indígenas, que são os povos originários, de terem o direito de viverem de acordo com seus costumes e tradições, com seu território, eu acho que é uma reivindicação… Todo ser humano gostaria de ser respeitado e poder viver de acordo com as suas crenças, na medida em que estas crenças não agridam a outros povos. Eu tenho certeza que não só eu, mas qualquer cidadão que tenha a oportunidade de visitar uma aldeia, de conhecer uma rotina em uma comunidade indígena, vai se identificar. Eu sou apenas uma das pessoas que se identificam com a causa indígena.

Mas dentro da equipe a gente teve o Denilson Baniwa [animador gráfico da etnia Baniwa], que expressou muito bem o que a câmera não conseguiu, de uma maneira muito inteligente em forma de animação. A gente aprendeu muito com ele neste processo. Quase todos os episódios possuem animação e a gente deu carta branca para ele criar a partir da direção dele.

  1. Vocês visitaram 21 etnias diferentes, em 11 estados. Foi uma cobertura bem ampla. Como vocês selecionaram os povos e o que filmar deles?

O Mato Grosso do Sul é o estado brasileiro em que acontece a maior parte dos conflitos de terra envolvendo homicídios e a gente sabe como é urgente trabalhar essa questão porque o que acontece lá é um genocídio, de séculos. Enquanto equipe, não tínhamos experiência no Mato Grosso do Sul, mas sabíamos que filmar lá era importante. Então fomos atrás de pessoas que já têm uma experiência, indígenas ou não, que se dedicam à causa. E fomos recebidos super bem, inclusive pela FUNAI que trabalha muito bem lá. A gente encontrou, realmente, alianças para conseguir realizar uma filmagem no Mato Grosso do Sul, que era desconhecido para a gente. Em outros lugares, nos sentimos muito acolhidos. No [povo] Enawenê Nawê, em que a nossa produtora executiva trabalhou por anos… Também nos Manoki, em que eu morei por três anos e meio… Então ficou mais fácil.

Foi um trabalho de pesquisa para a gente chegar em alguns locais. Nunca tínhamos conhecido pessoalmente os Pankararu que moram na cidade de São Paulo. E a gente foi, a partir de pesquisa, tentando chegar a estes povos. E o que foi bacana, é que em todos os povos indígenas que trabalhamos, eles nos receberam com muito carinho, acreditaram muito no nosso trabalho. Muita confiança, a gente dormindo muitas vezes na casa dos próprios povos, dividindo comida, com eles separando um espaço na casa deles para as nossas redes… Isso para a gente não tem preço. Isso foi a coisa que mais me emocionou durante as gravações.

Povo Dessana, Amazonas / Escola Myky, Mato Grosso / Pajé Yanomami, Roraima / Baltazar Baré, soldado em São Gabriel, Amazonas – Cedida por Sérgio Lobato/OPAN

Ficha Técnica

Produtora: Amazon Picture                                                                                  Coprodução: Cambará Filmes
Direção geral: Bruno Villela e Sérgio Lobato
Direção de Fotografia: Pedro Rodrigues e Fábio Bardella
Produção executiva: Juliana Almeida
Assistente de produção: Geraldo Brandão
Roteiro: Bruno Villela, Juliana Almeida e Sérgio Lobato
Episódios: 13
Duração: 26 min.
Classificação indicativa: Livre

Sinopse: No Brasil muitas pessoas ainda veem os índios no passado ou sem perspectiva de futuro. E você? Vê os índios no presente? Produzida em 2017, a série documental Índio Presente visitou dezenas de povos indígenas em diferentes Estados brasileiros para desconstruir, em 13 episódios, os principais estereótipos sobre estes grupos.

Contato com a Imprensa:

 Lívia Alcântara

livia@amazonianativa.org.br

(65) 3322-2980

Anúncios

#ComunicaJuruena

Acompanhe as oficinas de redes sociais para a Rede Juruena Vivo

Lívia Alcântara/OPAN

Indígenas de oito etnias são a primeira turma das oficinas de redes sociais. Foto: Paulo Eberhardt/OPAN

Acontece, durante esta primeira quinzena de agosto, uma formação em redes sociais para a Rede Juruena Vivo. A iniciativa é uma realização do projeto Berço das Águas III da Operação Amazônia Nativa (OPAN) e é patrocinada pelo programa Petrobras Socioambiental.

Mais de 60 jovens, dentre eles indígenas, urbanos e assentados, participam deste primeiro módulo, que propõe reflexões sobre as plataformas Facebook, Twitter e Instagram. A proposta pedagógica utiliza ferramentas já incorporadas no cotidiano dos participantes para construir estratégias coletivas de comunicação. Para Paulo Motoryn, jornalista e facilitador das oficinas, “o desafio é trabalhar numa rede que é heterogênea, que tem muita diversidade, muitos conhecimentos, saberes, e que precisa ter uma atuação conjunta”.  

A oficina ocorre em três núcleos do Juruena, que abarcam diferentes localidades da sub-bacia: Aldeia Cravari (TI Manoki) e municípios de Juína e de Cotriguaçu. Neste primeiro módulo, a missão dos participantes é criar uma campanha digital para a Rede Juruena Vivo, que participará, em dezembro deste ano, da Conferência Mundial do Clima, a COP24. No segundo módulo serão trabalhadas narrativas textuais e fotográficas do jornalismo e o foco será a produção de jornais impressos. Na terceira etapa será a vez do audiovisual.

A iniciativa das oficinas de comunicação nasce de uma demanda da própria Rede Juruena Vivo, que surge em 2014, quando pessoas e instituições preocupadas com questões socioambientais se uniram para dialogar sobre os desafios que atingem a região, como a multiplicação de empreendimentos energéticos nos rios, o avanço das lavouras de soja e algodão e a contaminação das águas pelo agrotóxico.

Para acompanhar as produções desta primeira oficina, você pode seguir as hashtags #JuruenaVivo  #ComunicaJuruena e #OficinaDeRedes no Facebook.

Facebook, Twitter e Instagram são apropriados para a construção de uma campanha coletiva para a Rede Juruena Vivo. Foto: Lívia Alcântara/ OPAN

Berço das Águas entra na 3ª edição

Imagem

O Projeto Berço das Águas atuará conjuntamente com a Rede Juruena Vivo e com o povo Rikbaktsa na sub-bacia do Juruena, no estado de Mato Grosso.

Lívia Alcântara/OPAN

Começou uma nova etapa do Projeto Berço das Águas. A iniciativa, que tem duração de dois anos (2018-2020), é executada pela Operação Amazônia Nativa (OPAN) e, em suas três edições, conta com o patrocínio da Petrobras, via o Programa Petrobras Socioambiental. Uma das frentes do projeto pretende fortalecer a Rede Juruena Vivo. Criada em 2014, a rede reúne diferentes atores sociais, entre indígenas, agricultores familiares, organizações não governamentais e estudantes interessados em participar das tomadas de decisão sobre o futuro da sub-bacia do Juruena.

Para além do trabalho com a Rede, o Berço das Águas atuará em três terras indígenas (TIs) do povo Rikbaktsa. São elas: Japuíra, Erikpatsa e Escondido, nas quais vivem mais de mil pessoas. Nas duas primeiras, pretende facilitar a elaboração do Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA)* – uma vez que a TI Escondido já possui seu plano elaborado. Em todas as três áreas acompanhará a execução de ações de proteção e monitoramento territorial.

Mapa Berço III

Mapa de localização da  sub-bacia do rio Juruena e as terras indígenas do povo Rikbaktsa. Elaborado por Ricardo da Costa Carvalho.

O contexto da sub-bacia do Juruena

O Juruena abriga uma imensa variedade de fauna e flora em dois biomas, Cerrado e Amazônia, além de possuir 21% da sua área ocupada por 22 terras indígenas, de 10 etnias diferentes. Seus rios fazem parte da bacia do rio Tapajós, que banha parte do estado do Pará e deságua no rio Amazonas.

A sub-bacia do Juruena possui uma importância ímpar para os povos que vivem ali e para o ecossistema como um todo. Guarda um enorme potencial para o ecoturismo, com corredeiras, passeios, festivais de pesca, observação de aves e canoagem. É rica em diversidade de espécies de peixes, alimentos, plantas medicinais e animais silvestres, assim como em técnicas tradicionais de manejo de sementes e plantas tradicionais. Suas riquezas também estão presentes nas biojóias comercializadas pelos indígenas.

Pese essa importância, o Juruena encontra-se ameaçado pela pressão da expansão de lavouras de algodão, milho, soja e outras monoculturas, pelo uso intensivo de pesticidas nessas produções e pelos empreendimentos hidrelétricos previstos para a região. É nesse contexto que o Berço das Águas visa contribuir com o fortalecimento das comunidades do Juruena.

No caso da Rede Juruena Vivo, há um histórico de articulação dos povos, que vem se dando, sobretudo, a partir dos quatro grandes encontros anuais já realizados, os festivais. Na terceira etapa, para além do Festival Juruena Vivo, o projeto busca apoiar intercâmbios entre os povos da região para a gestão integrada das terras indígenas; encontros de mulheres, participação em eventos, entre outras ações.

“O Berço das Águas inaugura a implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI) na sub-bacia do Juruena, em 2011, mesmo antes da edição do decreto que regulamenta esta política pública, o que aconteceu um ano depois. Desde então, tem sido uma das principais iniciativas de apoio à gestão territorial indígena na região”, ressalta Artema Lima, coordenadora do Programa Mato Grosso da OPAN.

O histórico do Projeto Berço das Águas

A terceira edição do projeto dá continuidade a outras duas experiências que ocorreram entre 2011 e 2012 e de 2014 a 2015. Na primeira edição, foram elaborados três planos de gestão: Manoki, Myky e Pirineus de Souza e, na segunda, o plano da TI Tirecatinga. Em todos esses anos, a OPAN, além de apoiar a elaboração desses produtos, vem contribuindo com a implementação de ações estratégicas, como o monitoramento do status de conservação das terras indígenas, a realização de atividades de educação ambiental nos municípios da região, o apoio ao manejo indígena de seus territórios, o intercâmbio de sementes e o beneficiamento do artesanato, por exemplo.

A articulação com os Rikbaktsa

Tarcísio Santos, coordenador do projeto, conta que a primeira reunião, realizada no início de maio, na Aldeia Primavera, na TI Erikpatsa, teve uma grande adesão. “Os vários grupos, homens, mulheres, crianças, anciãos, professores, todos os Rikbaktsa, se mostraram bastante interessados em contribuir com o processo. Então, a expectativa é a melhor possível”.

Nesta terceira etapa, o trabalho vem de uma demanda da Rede Juruena Vivo e do povo Rikbaktsa. Estes últimos tiveram a primeira experiência com o PGTA na Terra Indígena Escondido, conforme explica Leonardo da Aldeia Cerejeira, liderança da TI Japuíra: “O Plano de Gestão é algo que já estávamos querendo, mas não sabíamos como fazer. Vimos que o trabalho no Escondido foi bom”.

“Já estamos vivendo a situação de escassez do peixe, a maioria da nossa alimentação tem vindo do mercado. Nós lutamos pela demarcação desses territórios e agora é preciso pensar como vão viver nossos jovens, as crianças, a cultura, quem serão as pessoas que vão continuar a luta, defender o rio Juruena, fonte da nossa riqueza. Se aceitarmos os empreendimentos hidrelétricos vamos comprometer seriamente o futuro do nosso povo”, declara Albano, liderança Rikbaktsa, morador da Aldeia União, TI Erikbaktsa.

*A PNGATI foi estabelecida por meio do Decreto 7747/2012 e é fruto de um processo de reivindicação de políticas públicas pelos próprios povos indígenas ao Estado brasileiro. Visa reconhecer e apoiar a gestão ambiental e territorial que os povos indígenas já fazem em suas terras. Um de seus instrumentos são os planos de gestão.

Colaborou com esta reportagem Liliane Xavier.

 

UHE Castanheira: repetição de equívocos

Governo quer aprovar hidrelétrica que ameaça barrar o rio mais rico em peixes da bacia do Juruena (MT), com impactos irreversíveis aos povos indígenas.

A UHE Castanheira não cumpre com um primeiro e essencial item no roteiro de qualquer projeto hidrelétrico: a justificativa de sua necessidade. Foto: Michel Andrade/arquivo pessoal.

Por Andreia Fanzeres/OPAN.

Cuiabá, MT  – O anúncio do governo federal de não repetir novas tragédias hidrelétricas na Amazônia acaba de ser novamente maculado. Numa região com mais de uma centena de pequenas e micro usinas, o maior projeto da sub-bacia do Juruena em tramitação até hoje, a UHE Castanheira caminha a passos largos. Teve as audiências públicas para a apresentação dos estudos ambientais marcadas pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA) para o mês que vem sem esperar a manifestação da Funai, repetindo a prática de se adiantar para ver legitimado mais este projeto hidrelétrico como se os povos Apiaká, Kayabi, Munduruku, Rikbaktsa e Tapayuna fossem um mero apêndice ao trâmite de aprovação do empreendimento.

Prevista no Plano Decenal de Energia (PDE) do governo federal, a usina de Castanheira está envolta em muita controvérsia. Largou na frente na corrida para barrar os principais rios do Juruena, formador do Tapajós, porque seu lago de 94,7 km2 não toca diretamente nenhuma terra indígena ou unidade de conservação. Mas isso não faz deste empreendimento exemplo a ser seguido.

Castanheira não cumpre com um primeiro e essencial item no roteiro de qualquer projeto hidrelétrico: a justificativa de sua necessidade. Ela tão somente se refere ao PDE 2023 e ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC2) para “atender ao crescimento da demanda de energia no país para os próximos anos”, quando deveria explicar como um projeto hidrelétrico relativamente pequeno com uma grande variação sazonal no seu montante de geração e tão distante de centros de carga relevantes é realmente necessário.

Muito barulho por nada

Previsto para gerar 140 MW, a usina garante entregar 98 MW de energia firme. Isso não representa nem 1% do que é consumido atualmente em Mato Grosso. Mas, em nome dessa insignificância, o Estado brasileiro está disposto a barrar cinco sextos do rio mais piscoso da sub-bacia do Juruena, já que a usina se projeta a apenas 120 km de sua foz. Isso poderá interromper para sempre o fluxo de peixes migratórios do Arinos, que não voltará mais a ostentar seus famosos festivais de pesca. Sob risco estão espécies como as matrinchãs, que têm maior valor comercial e são capazes de nadar por milhares de quilômetros desde suas áreas de berçário.

Qualquer perturbação nesse ambiente será drástica, com efeitos negativos de longo prazo, irreversíveis, de caráter cumulativo e considerada de grande magnitude sobre a população de peixes. Além disso, a muralha que deverá conter as águas caudalosas do Arinos ficará a cerca de 30km da cidade de Juara. Se conseguir segurar a volumosa quantidade de sedimentos que fazem deste o rio mais barrento do Juruena sem desgastar demasiadamente suas turbinas, como acontece hoje com as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, a população urbana poderá dormir tranquila. O mesmo não se pode dizer de dezenas de pequenas propriedades rurais, que serão diretamente alagadas pelo reservatório.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) é, neste caso, a maior interessada pelo empreendimento. Pudera. Conforme estudo recentemente lançado pela Conservação Estratégica (CSF-Brasil), a usina de Castanheira é inviável do ponto de vista financeiro e econômico. É prejuízo na certa para qualquer investidor privado, como outras grandes obras que o governo brasileiro empurrou goela abaixo, apesar de todas as evidências em contrário. Os povos do Juruena já aprenderam com essas recentes tragédias sociais e ambientais, e escolheram não manchar mais suas águas com quem, em vez de gerar energia, quer encher os cofres das construtoras em ano eleitoral.

Violações aos direitos indígenas

A UHE Castanheira teve uma sorte, afinal: a de contar com um Estudo do Componente Indígena (ECI) primoroso, que deveria influenciar diretamente a decisão de não construir esta usina. Entre os principais impactos irreversíveis identificados destacam-se: restrição do acesso a áreas usadas nas atividades produtivas e limitação para obtenção de recursos naturais; alteração na organização social, política e cultural dos povos indígenas; intensificação dos conflitos interétnicos e interferência nas atividades de pesca de tracajás e coleta de ovos. Logicamente, por serem irreversíveis, nenhum problema seria reduzido com medidas mitigadoras. Ou seja, a usina é inviável do ponto de vista de seus impactos sobre os indígenas.

Os Tapayuna até hoje não tiveram acesso ao projeto que afetaria seu território tradicional. Foto: Giovanny Vera/OPAN.

Embora o componente indígena não tenha se furtado a tecer uma longa análise sobre as implicações do empreendimento em território tradicional do povo Tapayuna, a EPE não aceitou que esta população, que ocupou imemorialmente uma vasta área no interflúvio Sangue-Arinos, fosse abrangida pelo estudo.

Os indígenas, por sua vez, aguardam até hoje a chance de terem acesso à pesquisa, a eles jamais encaminhada. “A população tem que ouvir e se expressar. Não levar dúvida pra casa. Onde está a pesquisa? Queremos cópia desse documento”, reclama Edgar Ipiny, do povo Rikbaktsa, que em novembro do ano passado participou de uma viagem organizada pela EPE para o canteiro de obras de UHE Teles Pires, atendendo a um pedido dos indígenas afetados pela UHE Castanheira. Eles queriam visitar um local já impactado por uma hidrelétrica para fazerem sua reflexão. “Estivemos lá no Teles Pires. Sentimos o que é uma barragem. A conclusão de todos que fomos é de que aquilo não é coisa para os povos indígenas e sim para o agronegócio. Ninguém contou pra gente, vimos pessoalmente”, relata Inipy.

“O que vocês precisam é de organização para não deixar acontecer. Nosso erro foi esse. A gente precisa se organizar melhor para combater esses empreendimentos”, considera Laureci Muo Munduruku, liderança da Associação Dacê, que pretendeu levar a experiência dos Munduruku do Teles Pires para o Juruena. “Vocês querem saber se saímos de lá tristes? Saímos com espírito mais forte para lutar contra essas usinas que estão aí. Estamos prontos para defender o nosso rio Juruena vivo”, disse Erivan Morimã, do povo Apiaká.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog Neo Mondo, do Estadão.

Uma rede mais madura

Mais de 500 pessoas reúnem-se no IV Festival Juruena Vivo para pedir respeito ao direito de consulta e consentimento.

Capa

Por Andreia Fanzeres/OPAN.

TI Erikpatsa, Brasnorte-MT – Banhada pelo majestoso rio Juruena, a aldeia Primavera, do povo Rikbaktsa, foi anfitriã de um dos mais importantes eventos de articulação regional do noroeste de Mato Grosso, o IV Festival Juruena Vivo. Cerca de 500 pessoas de pelo menos 12 etnias indígenas e representantes de comunidades tradicionais reuniram-se entre os dias 10 e 12 de novembro de 2017 numa demonstração de compromisso e engajamento na proteção da sub-bacia do Juruena.

Pela primeira vez numa aldeia indígena, o Festival Juruena Vivo foi palco para discussões de alto nível sobre cultura indígena, planejamento e desenvolvimento territorial na sub-bacia do Juruena, direito à consulta e consentimento livre, prévio e informado, intercâmbio de experiências com comunidades afetadas pelas hidrelétricas de Teles Pires e São Manoel, oficinas de comunicação, mostra de cinema e feira de artesanato. Não faltaram também apresentações culturais de todos os povos indígenas ali representados, nem o já tradicional show do violeiro Victor Batista.

Além disso, as comunidades realizaram um emocionante acolhimento à comitiva de lideranças Tapayuna, povo que sofreu envenenamentos, massacres e retirada forçada da região do interflúvio dos rios Sangue e Arinos nos anos 70. Eles tiveram apoio maciço das comunidades do Juruena na luta por seu território tradicional, passando a engrossar a relação de parceiros da Rede Juruena Vivo.

Foto 2_tapauynaComitiva Tapayuna marca presença no Festival e é acolhida pela Rede Juruena Vivo. Foto: Giovanny Vera/OPAN.

“Acreditamos que iniciativas como esta são importantes para nossa reflexão e conscientização. Assim, o Juruena poderá continuar vivo por muito tempo”, opinou Adegildo José do Nascimento, coordenador substituto da CR Noroeste da Fundação Nacional do Índio (Funai). A preocupação generalizada pelos impactos de empreendimentos hidrelétricos a todos os rios da sub-bacia do Juruena, que pertence à bacia do Tapajós, foi um dos motes do encontro.

Embora a maioria dos empreendimentos previstos para a sub-bacia do Juruena ainda não tenham saído do papel, diversos povos relataram os impactos que o rio já vem sofrendo devido ao esquema de autorizações sequenciais para uso da água, contaminação por agrotóxicos e desmatamento. “Olha quanta lavoura no entorno do Juruena! Quando chove, o veneno vai para o rio, não tem mais uma caça que já não esteja contaminada”, contou o cacique Lindomar, da aldeia Escolinha, da TI Erikpatsa.

Rio JuruenaRio Juruena. Foto: Giovanny Vera/OPAN.

 De acordo com dados levantados pela Rede Juruena Vivo, existem pelo menos 125 hidrelétricas inventariadas para a região, em estágios diferentes de planejamento, instalação, operação. Aproximadamente 30% dos projetos têm potência de até 5 mW (chamadas CGHs), 40% são UHEs que têm acima de 30 mW e outros 30% são as PCHs (de 5 a 30 mW).

Uma das mais preocupantes é a UHE Castanheira (140 mW), prevista para barrar o rio Arinos próximo a sua foz, e que está em processo de licenciamento ambiental pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso (SEMA). Além de impactos irreversíveis à migração de ictiofauna no rio mais piscoso de toda a bacia hidrográfica, a usina afetará diretamente regiões tradicionais de uso e ocupação de quatro povos indígenas que tiveram subtraídas aquelas áreas nos processos de demarcação de seus territórios.

Foto 3Kanísio Karara Kayabi fala sobre a importância da luta indígena por seus territórios tradicionais.Foto: Giovanny Vera/OPAN.

Cientes de que recorrentes decisões do executivo estadual e do federal têm violado o bem-estar das comunidades indígenas e ribeirinhas, os participantes do encontro redigiram uma carta (leia aqui) denunciando a falta de planejamento e critérios socioambientais na autorização de empreendimentos no Juruena, reivindicando, sobretudo, o cumprimento da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

“Espero que nosso grito de guerra pelo meio ambiente chegue no Temer. Aquele não tem vergonha. Quer acabar com tudo. Há quantos mil anos os índios moram aqui? Recentemente o estado de Mato Grosso autorizou o uso do correntão para desmatar as áreas. Eu fiquei muito triste. Pelo menos proteger as cabeceiras! Temos que levar nosso apelo para Brasília, para fora daqui”, sugere Rosinês Kamunu, do povo Manoki. “Nossos direitos no Congresso Nacional estão ameaçados. Nós estamos levando spray de pimenta, tem fazendeiro no entorno de nossas terras de olho nas nossas riquezas, inclusive as do subsolo. E o que dizer das prefeituras? Onde estão os recursos do ICMS-Ecológico? Cadê as ações de preservação?”, reclamou Nelson Mutzie, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi).

Foto4

Ronsinês Kamunu, do povo Manoki, relata descontentamento com a política socioambiental e aponta impactos jamais mensurados dos empreendimentos sobre povos e territórios indígenas. Foto: Giovanny Vera/OPAN.

Ampliando a participação

Na ponta da língua de todas as comunidades que se manifestaram no festival esteve o apelo pela união dos povos indígenas e a sua participação ativa nos espaços de tomada de decisão como instrumentos essenciais de luta no contexto de ameaças aos direitos garantidos na Constituição Federal.

Foto5Parceiros da Rede Juruena Vivo definem estratégias de governança para o grupo. Foto: Giovanny Vera/OPAN.

“A luta principal dos povos indígenas sempre foi pela terra. Agora é pela água”, disse José Ângelo Silveira Nambiquara Txyalikisu, assessor institucional da Federação dos Povos Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt). Ele, que dias antes havia participado de uma reunião do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema) em Cuiabá e presenciou a grande pressão pela dispensa de estudos ambientais complexos para aprovação de empreendimentos no entorno de terras indígenas, avaliou que o movimento indígena em Mato Grosso precisa ampliar sua atuação para fazer valer seus direitos. “Se não tivermos representação nossa lá, eles decidem o que querem”, comentou.

Os parceiros da Rede Juruena Vivo ressaltaram o potencial transformador das mobilizações populares envolvendo uma ampla rede de parceiros, algo que lamentavelmente não ocorreu quando, no início dos anos 2000, o povo Enawene Nawe lutou sozinho contra a sequência de empreendimentos hidrelétricos no alto curso do rio Juruena. Elas foram aprovadas a jato durante o governo de Blairo Maggi, afetando diretamente não apenas a oferta de peixes, mas sua organização social. “Só não aconteceram mais hidrelétricas no Juruena porque houve mobilização de vocês”, considerou Jocelita Giordani, do Ibama. Erivan Morimã, do povo Apiaká, resgatou na história os elementos que comprovam isso. Lembrou com orgulho o que pode ter sido a primeira mobilização de caráter regional no Juruena em resistência a uma hidrelétrica, no rio dos Peixes. “Em 1985 barramos uma usina que já estava com tudo praticamente pronto. E foram todos os povos do Juruena que se uniram”, disse.

De acordo com Marta Tipuici Manoki, da secretaria-executiva da Rede Juruena Vivo, as últimas mobilizações foram bem-sucedidas porque são embasadas na defesa dos direitos dos povos do Juruena. “Quando a gente pede para ser ouvido, não estamos indo contra ninguém. Queremos apenas garantir nossos direitos. ONGs, Funai e estudiosos trazem informações para nós e nós decidimos de que forma vamos usar. Não somos manipulados por ninguém”, disse. E destaca o entendimento da Rede Juruena Vivo sobre a avalanche de empreendimentos previstos para a região. “Quando se fala em hidrelétricas, às vezes a gente quer negociar o nosso direito em cima do direito dos outros. Água é um direito coletivo, bem de todos. Não existe ‘A’ e ‘B’ mais afetados. Todos somos afetados. Nós estamos ligados como se fosse uma veia, através dos rios”.

Foto 6Marta Tipuici Manoki, da secretaria-executiva da Rede Juruena Vivo, fala sobre a necessidade de análises de impacto em nível de bacia hidrográfica em Mato Grosso. Foto: Giovanny Vera/OPAN.

Contatos com a imprensa

Dafne Spolti

dafne@amazonianativa.org.br

(65) 3322-2980

Projeto Vozes dos Atingidos – Fórum Teles Pires – O valor da ancestralidade para os Munduruku impresso em Sete Quedas

Originalmente no site da Amazônia Real – Por Sucena Shkrada Resk/FTP-ICV

10/04/2017 21:46

Por Sucena Shkrada Resk

O Fórum Teles Pires (FTP), com o apoio do Instituto Centro de Vida (ICV) tem como quarto entrevistado, o indígena Valmir Waro Munduruku, da Aldeia Teles Pires, localizada no PA divisa com MT, que expõe a importância dos valores imateriais e ancestrais nos lugares sagrados para seu povo e outras etnias ao longo do rio Teles Pires, em especial, as corredeiras de Sete Quedas.

Valmir Waro Munduruku (Foto: Sucena Shkrada Resk/FTP-ICV)

“As corredeiras de  Sete Quedas (Paribixexe) desapareceram com a construção da UHE Teles Pires, em 2013”, conta Valmir Waro. Segundo ele, parte da história de seus ancestrais, que está ligada à relação cosmológica de seu povo  neste trecho, em que foram enterrados, foi desrespeitada.  Poucas urnas sobraram e foram levadas a um local distante da aldeia, fora do acesso dos indígenas.

A aldeia Teles Pires fica na Terra Indígena Kayabi, onde também vivem os índios Apiaká e Kayabi.

Sucena Shkrada Resk é jornalista do Fórum Teles Pires (FTP) e do Núcleo Centro de Vida (ICV).  A foto desta matéria é de sua autoria.

Veja o vídeo abaixo:

As perdas indígenas não pararam na ditadura e prosseguem no estado democrático

Originalmente no site do ICV e do IHU-OnLine – Por Sucena Shkrada Resk/ICV

A Semana dos Povos Indígenas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, terá como convidado e palestrante de abertura, na noite do dia 17, o jornalista e escritor Rubens Valente, autor do lançamento literário “Os fuzis e as flechas – A história de sangue e resistência indígenas na Ditadura”. Em entrevista especial ao ICV, Valente faz um paralelo entre o período ditatorial com os processos de perdas de direitos e retrocessos na contemporaneidade democrática, em relação a grandes empreendimentos, no recorte de sua vivência no estado de Mato Grosso.

A entrevista é de Sucena Shkrada Resk, publicada por Instituto Centro Vida, 11-04-2017. (Revista IHU-On Line)

A Semana dos Povos Indígenas da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, terá como convidado e palestrante de abertura, na noite do dia 17, o jornalista e escritor Rubens Valente, autor do lançamento literário “Os fuzis e as flechas – A história de sangue e resistência indígenas na Ditadura”. Em entrevista especial ao ICV, Valente faz um paralelo entre o período ditatorial com os processos de perdas de direitos e retrocessos na contemporaneidade democrática, em relação a grandes empreendimentos, no recorte de sua vivência no estado de Mato Grosso.

O ICV é uma das instituições que apoia o evento e também participará da mesa Direitos Indígenas no Contextos das Hidrelétricas nas Bacias do Teles Pires e do Juruena, na manhã do dia 18, quando será apresentado o documentário O Complexo.

Por Sucena Shkrada Resk/ICV

ICV – O que difere o período da ditadura no contexto indígena do estado democrático de hoje? – Há armadilhas nesse suposto estado de direito, em sua avaliação?

Rubens Valente
– É impressionante verificar que há diversos pontos da política indigenista na ditadura militar que estão voltando ou já voltaram à baila na atualidade brasileira. Assuntos que a sociedade brasileira já enfrentou, já analisou e já descartou como retrocessos agora voltam como mantras políticos e jurídicos, como se fossem uma grande novidade, um “ovo de Colombo”. Por exemplo, a questão da “emancipação” do índio. No final dos anos 70, a ditadura tinha elaborado uma minuta de um decreto ministerial que pretendia permitir que, na prática, índios pudessem vender suas terras e se tornarem pequenos agricultores rurais. A revelação dessa minuta mobilizou a sociedade brasileira. Antropólogos, indigenistas, sertanistas da própria Funai, indígenas, o que levou a um grande debate que revelou a insensatez da medida, que por fim foi arquivada pela ditadura sob grande pressão da opinião pública. Tantos anos depois, eis que a mesma exata previsão, com outro nome e outras palavras, está incluída na PEC 215, que já foi aprovada pelo Congresso Nacional. E que foi relatada pelo atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio, que tem o comando da política indigenista do país. A mesma questão aparece em uma recente entrevista concedida pelo presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), segundo o qual os índios deveriam se tornar pequenos agricultores rurais.

ICV – Existe mais algum aspecto que te chama atenção quanto a retrocessos?

Rubens Valente – Outro ponto que chama a atenção é a criminalização da luta indígena pela terra, por um grupo de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Nos anos da ditadura, surgia a ideia de que havia muita terra para pouco índio e que o índio deveria ser “integrado” à sociedade dita “civilizada”. Nessa linha de raciocínio, o índio deveria se conformar, deveria se enquadrar, e passar a considerar a vida junto com os “civilizados”, ou seja, em subempregos rurais. Ao instituir uma linha de interpretação jurídica chamada “marco temporal”, sem nenhuma previsão em nenhum parágrafo da Constituição “Cidadã” de 1988, o que ministros do Supremo estão fazendo é criminalizar a iniciativa dos índios de reivindicarem suas terras. Terras que estão devidamente indicadas como indígenas, algumas das quais o próprio Estado brasileiro, por meio de laudos e estudos antropológicos feitos por agentes do Estado brasileiro, reconheceram como indígenas. Na discussão sobre o “marco temporal”, o ministro Gilmar Mendes chegou a dizer que os índios poderiam reivindicar a posse de alguma praia da capital do Rio de Janeiro, como Ipanema ou Copacabana. Em resposta, o ministro Lewandowski explicou que esse argumento é absurdo, pois nenhum índio está a reivindicar Ipanema ou Copacabana e, caso reivindicasse, muito provavelmente seria derrotado no Judiciário e no Executivo. Argumentos desse gênero são fantasmas criados de quando em quando, cortinas de fumaça. Argumento assim apareceram nos anos 50 e 60, é a chamada “Teoria de Copacabana”, feita para assustar os brasileiros desinformados sobre o tema indigenista.

ICV – Quais foram os principais efeitos da Ditadura Militar na cultura e incidência política indígena mato-grossense?

Rubens Valente – As populações indígenas de Mato Grosso (incluindo o que então era o sul do Estado, depois dividido em 1979) foram atingidas de diversas formas. A mais cruel foram os contatos com indígenas isolados por meio de missões que não contavam com os recursos necessários para tanto, como médicos e medicamentos suficientes. Essa ausência de parâmetros mais corretos de atuação levou a grandes tragédias, como a dos Tapayuna, na época conhecidos como “beiços-de-pau”. Mais de 100 índios morreram nesse episódio, segundo o testemunho do padre Antonio Iasi Júnior, que na época trabalhava com a Prelazia da Igreja Católica em Diamantino. Documentos localizados durante a pesquisa para o livro também deixaram evidente, pela primeira vez, que a própria ditadura concluiu que houve falhas no contato com os índios Tapayuna e que isso levou à morte de indígenas, pois eles foram contaminados a partir de erros na execução do contato. O sertanista responsável pela operação, por sua vez, culpou o governo pela falta de condições mínimas para a realização do contato.

ICV – Quais outros direitos foram violados no período ditatorial?

Rubens Valente – A ditadura também colocou em prática uma política de transferências compulsórias de pessoas ou grupos inteiros, em operações executadas por servidores civis que representavam o governo federal e os militares na região. Foi assim nos casos das transferências de índios panará e dos kayabi para o Parque do Xingu, entre outros. O caso dos panará também ilustra outra sistemática dos militares, que era ir ao encontro de índios isolados, na época ditos negativamente como “hostis” ou “arredios”, para convencê-los a sair do caminho de rodovias em construção. A lógica que imperava na época era contatar os índios a qualquer custo. As transferências compulsórias também estão na base de outra tragédia que atingiu índios do Estado de Mato Grosso, que foi a mortandade dos índios xavante. Eles foram retirados de Maraiwetsede em 1966 e levados para uma área xavante de São Marcos. Porém, quando chegaram estourou um grande surto de doenças, o que teria matado também mais de 100 índios. Então somente nesses dois casos em Mato Grosso (Tapayuna e Xavante) houve mais de 200 mortos.

ICV – Como você avalia no recorte de direitos humanos a situação de indígenas, na atualidade, sob a pressão de grandes obras de infraestrutura, como hidrelétricas, e projetos de lei e ações governamentais de diminuição de terras indígenas?

Rubens Valente – Os abusos contra os direitos dos indígenas hoje em dia se dão em pelo menos três níveis: a) as grandes obras realizadas dentro de áreas ou no entorno de áreas indígenas, como o caso da hidrelétrica de Belo Monte, ainda que essas populações não tenham dado seu consentimento objetivo, o que contraria uma Convenção da OIT (Organização Internacional do Trabalho); b) o assassinato seletivo de lideranças indígenas, em especial no Mato Grosso do Sul, entre os guaranis, e na Bahia, entre os pataxós hã-hã-hãe, entre outros grupos, crimes realizados por grupos paramilitares e com apoio de representantes de propriedades rurais, conforme já foi documentado por investigações do Ministério Público Federal; e c) um aparato jurídico-legislativo, que envolve o Supremo Tribunal Federal e a Câmara dos Deputados, que na prática provoca a criminalização da luta dos indígenas por suas terras, ainda que reconhecidas pelo próprio Estado brasileiro com laudos antropológicos. A ação jurídico-legislativa que estabelece um “marco temporal” _segundo a qual os índios só podem reivindicar suas terras se estavam sobre elas em outubro de 1988, é tão somente uma interpretação jurídica, que não está prevista em nenhuma linha e nenhum parágrafo de toda a Constituição de 1988. Uma interpretação feita por três ou quatro ministros do Supremo, que ainda não foi analisada pelo plenário, e mesmo que venha a ser confirmada, contraria um princípio estabelecido na Constituição, segundo o qual o Estado teria a obrigação de demarcar as terras indígenas num prazo de cinco anos. A Constituição nada fala sobre “marco temporal” por uma simples razão: na época da Carta estava bem claro que grupos indígenas foram expulsos de suas terras ao longo dos anos, o que agora ministros do Supremo e parte do Congresso e do Executivo se recusam a reconhecer.


ICV – Na Coordenação Regional do Arquivo Nacional de Brasília, você cita no livro, que copiou e leu um total de 11786 páginas, fotografadas uma a uma, que formam um acervo de 187 dossiês produzidos pelo braço do Serviço Nacional de Informações (SNI) na Funai sobre pessoas, instituições e assuntos. Além da coleta dos depoimentos, o que esse volume imenso de informações e narrativas modificou em sua vida como jornalista e cidadão?

Rubens Valente – Tomei contato com os índios pela primeira vez em 1982, quando tinha doze anos de idade e minha família se mudou do Paraná para Dourados, no interior de Mato Grosso do Sul. Em Dourados existe a maior “aldeia urbana” do país, hoje com 15 mil indígenas. Depois, em 1989, já como repórter tive a oportunidade de conhecer diversas terras indígenas no MS, MT, RO, RR e AM. Dessa forma, eu tive contato com etnias e problemas diversos. Ao longo desse processo, sempre ouvi histórias sobre o período militar de índios, funcionários da Funai, missionários do Cimi e antropólogos que me despertaram para a necessidade de uma pesquisa mais aprofundada sobre o tema, o que foi possível fazer a partir de 2008 com mais ênfase, e depois mais dois anos, 2013 e 2014 de dedicação ao assunto. O que mais me impressionou durante a pesquisa foi ter acesso a documentos antes inéditos que confirmaram em detalhes aquilo que as testemunhas vivas diziam ao longo dos anos. A pesquisa para mim também demonstrou o quão pouco ainda nós, jornalistas, historiadores e pesquisadores, sabemos e estudamos sobre esse período, em especial a partir do ponto de vista dos índios.