Sustentabilidade do Setor Elétrico Brasileiro foi tema de seminário na Câmara dos Deputados

23/10/2015

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Em seminário na Câmara dos Deputados, organizações da sociedade civil e parlamentares apontam alternativas para o país adotar de forma acelerada fontes renováveis e sustentáveis de energia.

Não falta dinheiro para investimentos, conhecimento técnico, nem condições materiais para que o Brasil comece a sair de uma matriz energética baseada em grandes usinas hidrelétricas, causadoras de grandes impactos sociais e ambientais, e em fontes térmicas que queimam combustíveis fósseis caros e poluentes. O que falta é vontade política dos agentes governamentais e do setor privado para colocar alternativas de menor impacto – como energia solar e eólica descentralizadas, imediatamente  em andamento.

Essas são algumas das principais questões debatidas durante o seminário “O Setor Elétrico Brasileiro e a Sustentabilidade no Século 21: Oportunidades e Desafios”, realizado na Câmara dos Deputados nesta quarta (21) por iniciativa da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil e do Grupo de Trabalho sobre Infraestrutura, em parceria com a Frente Parlamentar Ambientalista, a Comissão de Participação Legislativa da Câmara e a Fundação SOS Mata Atlântica.

Durante a abertura do evento, Ivo Poletto, da coordenação da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil, afirmou que “se reconhecemos que o Brasil pode e precisa ultrapassar um atraso tecnológico intencional por falta de vontade política e incentivo para desenvolver tecnologias brasileiras para o aproveitamento do sol, dos ventos, do movimento natural das águas do mar e da biomassa existente em todo país, chegaremos à conclusão de que não é necessário continuarmos com a atual política energética que privilegia grandes obras, as empresas e penaliza os consumidores com tarifas elevadas”.

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Poletto ressaltou também que a Frente já há um tempo vem tentando convencer os responsáveis pela política energética no país de que o Brasil tem sol, ventos e outras fontes mais limpas para produzir toda a energia elétrica que necessitarmos e, acima de tudo, de que é possível produzir essa energia de forma descentraliza em cada casa.

Em duas mesas de debate, revezaram-se na análise da matriz elétrica brasileira e suas alternativas sustentáveis pesquisadores, representantes de organizações da sociedade civil e de empresas do setor, senadores e deputados federais, para debater alternativas de expansão do sistema elétrico brasileiro, para opções ecologicamente mais sustentáveis, socialmente mais justas e economicamente mais inteligentes, como a energia solar fotovoltaica e a eólica.

“Antes de se discutir a matriz energética, precisamos debater a matriz ética ”, alertou o antropólogo e sócio fundador do Instituto Socioambiental (ISA), Márcio Santilli. “Por que, para garantir o meu direito de ter o provimento de energia na minha casa na cidade, é necessário inundar a casa de quem vive perto dos rios da Amazônia? Construir usinas superestimadas em potencial e superfaturadas no orçamento? Esse é um modelo corrupto e falido que está trazendo consequências muito negativas ao país”, questionou Santilli.

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“A política energética no Brasil é desconectada de uma política de desenvolvimento, de uma política industrial e de desenvolvimento socioambiental. Os Planos Decenais de Expansão de Energia estão desconectados dos leilões de energia e, consequentemente, do que realmente é contratado e posteriormente instalado”, criticou a advogada Kamyla Borges Cunha, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), chamando a atenção para o fato de que estão planejadas para serem construídas na região amazônica dezenas de grandes hidrelétricas, com previsão de grandes impactos.

Com ela concordou André Nahur, coordenador de mudanças climáticas e energia na organização WWF-Brasil. “O Brasil gastou nos últimos anos, em custos diretos, R$ 34 bilhões com usinas térmicas emergenciais, mas despreza o enorme potencial solar e eólico que possui. Segundo estudos de planejamento energético, instalando painéis solares em apenas 0,03% do território brasileiro, em áreas de insolação média, atenderíamos à toda nossa atual demanda”, afirma, chamando atenção para a necessidade de fazer aquilo que ele chama de “transição acelerada para a energia solar”.

“Se incentivarmos o uso da energia solar com o que usamos com as térmicas emergenciais, em apenas cinco anos teremos a mesma geração em termos de uso da energia solar. Se considerarmos que os sistemas de energia solar têm durabilidade de 25 anos, em longo prazo a energia solar será muito mais barata que as outras fontes”, completou Nahur, lembrando que um passo importante nesse sentido é o Brasil adotar, a exemplo do que já fizeram outros países, marcos legais diferenciados para o setor de fontes renováveis.

“As fontes sustentáveis  geram mais empregos, de melhor qualidade, melhor remunerados e que ainda estimulam a inovação tecnológica”, acrescentou Rodrigo Sauaia, da Associação Brasileira de Energia Solar (ABSOLAR), que reúne cerca de 100 empresas e profissionais do setor. “Cada MW gerado produz 30 empregos desse tipo”, estimou, fazendo ainda a comparação com a opção solar que a Alemanha e o Brasil fazem. “Lá, o país de maior capacidade instalada, eles geram perto de 40GW. Aqui, o mesmo sistema geraria o dobro, devido à intensa insolação do território brasileiro”, afirma. Atualmente o Brasil tem apenas cerca de 42 MW de capacidade fotovoltaica, segundo dados da ANEEL  de outubro de 2015.  Isso representa uma pífia participação na matriz elétrica brasileira.

Sauaia chamou atenção para a queda expressiva dos custos da energia solar, nos leilões de compra de energia organizados anualmente pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “Em 2013, cada MW contratado nos leilões saiu a 110 dólares. Em 2014 caiu para 88 dólares e no leilão e agosto passado ficou em 85 dólares. No leilão de novembro próximo esses valores deverão cair ainda mais”.

O uso de fontes de energia sustentáveis foi também defendido com veemência pelo deputado federal Pedro Uczai (PT-SC), que ao mesmo tempo defendeu o fortalecimento da indústria brasileira. “Há no mundo, por exemplo, poucas empresas produtoras de equipamento para geração eólica. Não podemos simplesmente permitir que elas venham para o Brasil e monopolizem o mercado”, alerta. Disse ainda que em seu estado esteve envolvido na resistência à construção de grandes barragens e atua em aliança com o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

No sentido dessa convergência, Sérgio Guimarães, membro do Instituto Centro de Vida (ICV) e  da coordenação do Grupo de Trabalho sobre Infraestrutura, propôs e ficou acordado um conjunto de reuniões com diversos parlamentares e a participação deles em um seminário técnico sobre energia solar que será realizado em novembro em conjunto com o Ministério de Minas e Energia. Também foi lembrada a importância de convidar os secretários estaduais de fazenda, a participarem dessa articulação, devido ao peso que as questões fiscais têm quando se trata de viabilidade das fontes renováveis.

Essa reunião com técnicos do governo e pesquisadores de organizações da sociedade, incluindo alguns parlamentares, foi um dos principais encaminhamentos do seminário. De acordo com Joilson Costa, da coordenação da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil, “o evento também apontou que é necessário unificar os esforços das várias frentes parlamentares que discutem as energias renováveis, a eficiência energética e a geração distribuída, para potencializar a celeridade de tramitação das propostas de lei nessas áreas”, observou Costa.

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Entre as propostas elencadas por Costa, a partir das intervenções realizadas nas duas mesas da manhã desta quarta, incluem-se ainda revisitar os vários projetos de lei em tramitação na Câmara e no Senado, estudar a possibilidades de acrescentar incentivos ainda não contemplados e buscar criar um marco regulatório mais amplo para o setor. Também foi sugerida a proposição de uma lei que institua a instalação compulsória de painéis fotovoltaicos em novas unidades de programas habitacionais do governo federal, bem como a destinação de parte das emendas parlamentares para a realização de projetos nas áreas de energias renováveis, eficiência energética e geração distribuída no país.

Os áudios do seminário podem ser acessados aqui.

E o Juruena virou música

Rede Juruena Vivo promove festival cultural na cidade de Juína e se reúne para discutir o futuro da bacia.

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Marcelo Manhuari Munduruku vence o concurso musical do II Festival Juruena Vivo. Foto de Carla Ninos.

Por Andreia Fanzeres

Juína, MT – Nem mesmo a chuva de invernada que surpreendeu quem estava no noroeste de Mato Grosso em pleno mês de outubro tirou o brilho e a emoção do II Festival Juruena Vivo. O evento, promovido pela Rede Juruena Vivo e pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Juína com apoio de diversos parceiros locais levou à cidade importantes reflexões sobre o destino da sub-bacia do rio Juruena – ameaçada por atividades predatórias e a previsão da presença de mais de 102 hidrelétricas, entre as planejadas, em construção e as já em operação. Quem quer ver esta região íntegra e sadia no futuro optou por tocar os corações por meio da cultura. E o Juruena virou música.

“Juruena caminho dos peixes/ Juruena caminho dos ventos/ Juruena caminho dos povos da Amazônia”, cantou Marcelo Manhuari Munduruku, que com este refrão contagiante e uma letra que levou parte do público às lágrimas, venceu o festival. “Desde criança eu cresci à beira do rio. Tenho intimidade com os temas que cantei. Aí foi só transformar os sentimentos em palavras e as palavras em poesia”, diz o autor.

Em segundo lugar ficou o reggae “Canção pro Juruena” de Mikael Henrique da Silva, que optou por um clima animado e descontraído para falar de assuntos sérios, como tarifa de energia, os atingidos por barragens e o respeito aos povos tradicionais. A canção “O paraíso é aqui”, de Cassio Fraitag, ganhou o terceiro lugar e evocou os diversos usos do rio Juruena, que mata fome, alegra a alma e refresca os dias quentes de quem vive às suas margens.

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O violeiro Victor Batista anima o público com delicadas canções sobre a natureza e o bem-viver. Foto de Andreia Fanzeres.

O júri que definiu os vencedores foi formado pelo arte-educador Herman Oliveira, a arte-terapeuta Gabriela Neves e por Victor Batista, cantor, compositor, arte-educador e violeiro autodidata que encerrou a noite com um show inesquecível. Através de suas composições delicadas e profundas sobre a vida do Cerrado, cantou o cotidiano de quem tira o sustento da terra, fazendo todos dançarem e cirandarem com sua viola encantada. Após o show, o artista prometeu levar a mensagem pela proteção do Juruena aos outros cantos do Brasil em suas turnês.

Evento de alto nível

“Foi um evento de alta qualidade artística”, avalia Liliane Xavier, militante do coletivo Aacuarela, que faz parte da Rede Juruena Vivo. A proposta de chamar as pessoas para discussão por meio da sensibilização foi elogiada por quem compareceu a Juína e prestigiou também a Exposição das Águas, com imagens inquietantes sobre a história de degradação dos rios brasileiros e as riquezas da bacia do Juruena, clicadas pelos fotógrafos Adriano Gambarini e Thiago Foresti.

Com imagens de Adriano Gambarini e Thiago Foresti, a Exposição das Águas levantou discussão sobre futuro do rio Juruena. Foto de Carla Ninos

Com imagens de Adriano Gambarini e Thiago Foresti, a Exposição das Águas levantou discussão sobre futuro do rio Juruena. Foto de Carla Ninos

“Esta exposição chama a atenção para como estamos tratando os nossos rios, fontes de vida no Brasil. O ranking do IBGE apresenta os dez rios mais poluídos do país por lixo industrial, agrotóxico, esgoto, barragens… e essas imagens chocantes contrastam com a beleza do Juruena. Desenvolvimento precisa ser sinônimo de morte dos nossos rios? Esta é a reflexão que esta exposição deixa para quem a visita”, comenta Andrea Jakubaszko, organizadora do evento e membro da Rede Juruena Vivo.

Paralelamente aos shows acontecia também a feira de produtos da agricultura familiar e arte indígena. Sob as tendas no Centro de Eventos de Juína era possível encontrar óleos e farinha de babaçu, própolis, mel, biscoitinhos e até macarrão de castanha-do-Brasil, barras de cereais, buchas vegetais, publicações distribuídas gratuitamente sobre gestão territorial indígena, ICMS Ecológico, mudanças climáticas, além de colares, anéis, brincos (de tucum e miçanga) e ornamentos indígenas, em geral.

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Veridiana Vieira apresenta seus produtos na feira livre durante o II Festival Juruena Vivo. Foto de Carla Ninos.

Mesmo com todas essas atrações, ainda é preciso insistir para que a população local se sinta mais estimulada a participar. “As pessoas geralmente não estão acostumadas a refletir sobre o espaço em que estão. Mais gente precisava ter visto e vivido tudo isso”, diz Liliane. “Quando a gente começa a abordar esse tipo de assunto, as pessoas têm um pouco de resistência. Mas quando elas se permitem, não tem como sair dessa experiência da mesma forma”, completa.

Desenvolvimento social é outra coisa 

Este é realmente um dos desafios da Rede Juruena Vivo nos próximos anos: garantir acesso à informação para viabilizar a participação popular na valorização e proteção do Juruena sobre as políticas públicas que afetam as comunidades. “A informação tem que circular. E este é um tema complicado, em que a população tende a se recuar pela desinformação. O que discutimos nas mesas promovidas durante o festival precisa ser difundido massivamente”, recomenda Cleiton Silvestrim, presidente da Associação de Moradores de Fontanillas, também componente da Rede Juruena Vivo.

Para conversar sobre o futuro da bacia do Juruena, a organização do evento chamou Daniel Rondinelli Roquetti, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam/USP), grupo que reuniu valiosos dados sobre todos os municípios alagados por barragens no Brasil. Isso permite a realização de diferentes análises que ajudam a elucidar uma questão que é propalada pelos governos como absoluta certeza: afinal, as hidrelétricas induzem ao desenvolvimento local? Essa análise comparativa demonstrou, a partir dos principais indicadores sociais analisados, que, ao contrário do que se imagina, não há melhoras no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desses municípios.

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Andrea Jakubaszko abre as discussões diante dos membros da Rede Juruena Vivo. Foto de Dafne Spolti.

“O que percebemos é que, comparados a seus vizinhos regionais, os municípios que abrigam as usinas passam por uma aguda transformação social. Há muitos casos em que é claro o aumento da prostituição, de doenças sexualmente transmissíveis, do consumo de álcool e drogas. Temos a hipótese de que o único momento em que o governo pensa no desenvolvimento local é durante a implantação de obras de infraestrutura”, explica Roquetti.

Além dessas discussões, o Festival apresentou oportunidades para os municípios prosperarem ambiental e socialmente sem arriscar seus mais importantes ativos naturais. Algumas das apostas é investir em uma maior participação e influência sobre o Programa Mato-grossense de Municípios Sustentáveis ou por mais adesões e pressões a favor de fontes energéticas, como a solar. “Ou nos damos conta e conseguimos mobilizar a população para produzir a energia que precisamos sem mexer nos rios da Amazônia ou a Amazônia vai-se embora junto com seus rios”, diz Ivo Poletto, da Campanha Nacional Energia para a Vida. Junto com o engenheiro eletricista Joilson Costa, da Frente por uma Nova Política Energética para o País, eles apresentaram a intensa mobilização nacional para diversificação da matriz energética brasileira e as grandes oportunidades da microgeração distribuída de energia.

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Cleacir Sá, moradora de Brasnorte, expõe relevantes questões sobre o papel das comunidades no controle social. Foto de Dafne Spolti.

“Nós vamos levar toda essa informação que estamos vendo aqui para conhecimento da nossa região através da nossa rádio comunitária e das salas de aula”, afirma Gilmar Schmitt, professor no Projeto de Assentamento (PA) Tibagi, no município de Brasnorte.

“Vida para nós, indígenas, é liberdade. É poder remar, poder nadar e ensinar a nadar. Nosso rio Juruena, o Arinos e o Sangue já estão assoreados por causa das grandes lavouras que se instalaram. Nossos filhos vão chorar por falta de água e nossa liberdade vai acabar. Estão iludindo os líderes indígenas. Alguns, por ganância, entregam nossa identidade, a nossa liberdade. E assim vai a nossa cultura. Estou preocupado, estou na luta. Não vamos esperar de braços cruzados!”, conclamou o professor Paulo Skirip, do povo Rikbaktsa.

Para se fortalecer, a rede pretende estruturar melhor seus grupos de trabalho a fim de multiplicar a capacidade de as comunidades receberem e transmitirem informações cada vez mais qualificadas. E isso deve acontecer por meio da constituição do que têm se chamado “Núcleos Olhos d’água”. “A Rede está se articulando de forma bacana, mas tem que trabalhar ainda sua organicidade, amarrando também os acordos com o poder público”, diz Silvestrim.

“No PA Juruena queremos formar um núcleo, é a segunda vez que participamos deste Festival tão bonito e se não nos prepararmos vamos ficar debaixo d’água”, diz Veridiana Vieira, liderança do PA Juruena, no município de Cotriguaçu.

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Elani Lobato, professora no distrito de Fontanillas, reclama direito de comunidades ribeirinhas serem ouvidas nas tomadas de decisão. Foto de Dafne Spolti.

“Desde que ouvimos pela primeira vez que iriam construir hidrelétricas no Juruena, em 2008, não fomos chamados para nenhuma discussão. Não aparecemos nos mapas. Nunca fomos ouvidos. E foi aqui que a história de Juína começou”, diz a professora Elani dos Anjos Lobato, moradora de Fontanillas há 21 anos.

Essa é uma percepção recorrente. Quando a população é chamada para a discussão, a pauta costuma ser compensação e mitigação, mas não prevenção, definição de agenda de desenvolvimento propriamente dita porque a decisão já está tomada. “Nos estudos de impacto da usina de São Luiz do Tapajós não havia nada sobre as populações afetadas. Essa parte vai entrar depois como anexo!”, lembra Ivo Poletto. E é isso que, na bacia do Juruena, a Rede pretende evitar. As comunidades ali reunidas e representadas, definitivamente, não querem ser tratadas como anexo.

Cantemos o Juruena

Juína sedia nesta sexta e sábado o II Festival Juruena Vivo, com vasta programação cultural em homenagem à integridade do rio Juruena.

 Por Andreia Fanzeres

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​I Festival Juruena Vivo, realizado em Cotriguaçu-MT, em novembro de 2014. Foto: Thiago Foresti.

Juína, MT – Centenas de pessoas, entre agricultores familiares, indígenas e representantes da sociedade civil dos municípios do norte e noroeste de Mato Grosso, são esperadas na próxima sexta-feira em Juína, a 750 quilômetros de Cuiabá, para uma agenda de palestras e atividades culturais voltadas à reflexão sobre a integridade do rio Juruena no desenvolvimento regional. O II Festival Juruena Vivo, realizado pela Secretaria de Educação e Cultura de Juína e pelo coletivo Rede Juruena Vivo, inclui mostra de vídeos, feira de produtos da agricultura familiar e arte indígena, exposição fotográfica, festival da canção e um show de encerramento com o violeiro de destaque nacional, Victor Batista. Tudo de graça.

Este é o II Festival Juruena Vivo. O primeiro aconteceu em novembro de 2014 na Fazenda São Nicolau, administrada pela ONF Brasil, no município de Cotriguaçu. Naquela ocasião, foram discutidas experiências de gestão territorial e informações sobre licenciamento ambiental, propiciando, sobretudo, a oportunidade de diálogo entre os diversos habitantes da região. “Nossa intenção é levar informação e favorecer a união de pessoas que vivem em diversos locais da bacia do Juruena, e que a cada ano um município se habilite a sediar este importante evento, que tende a se tornar tradição”, diz Andrea Jakubaszko, da comissão organizadora do I e do II Festival Juruena Vivo.

“A prefeitura de Juína, através da Secretaria de Educação e Cultura, se envolveu no Festival Juruena Vivo por acreditar o projeto interessante, contribuindo para o desenvolvimento social da população do Vale do Juruena”, diz o secretário da pasta, Ericson Leandro. “Estamos atendendo artesãos e ribeirinhos da região, além de levar a cultura mato-grossense para o município de Juína e região”.

O município, que este ano não pôde realizar o Festival da Canção de Juína (Fescaju), resolveu investir no II Festival Juruena Vivo, que terá também seu concurso musical. Com premiação para quem cantar as melhores músicas que falem da importância da bacia do Juruena, a ideia é sensibilizar a população para os usos dos rios da região, que drena 70% do estado de Mato Grosso e forma o majestoso Tapajós.

O rio Juruena, cujo acesso fica a cerca de 60 quilômetros da sede municipal de Juína, atrai centenas de pessoas todos os anos para o Festival de Pesca de Fontanillas no mês de setembro. “O rio é bastante procurado também para lazer, especialmente em uma ilha bastante frequentada aos sábados e domingos. E para a sobrevivência de ribeirinhos e indígenas, que fazem produtos artesanais a partir de frutos que ficam nas margens do rio e utilizam o Juruena como rota de transporte e caminho para a escola”, diz Ericson Leandro, da Secretaria de Educação e Cultura de Juína.

História e vida no Juruena

Em toda a bacia vivem cerca de 500 mil pessoas. Há 38 assentamentos, 11 povos indígenas em 20 territórios tradicionais reconhecidos, além de uma rica biodiversidade que abrange muitas espécies endêmicas, especialmente nas cachoeiras, e áreas chamadas de hot spots, ou seja, importantíssimas para a conservação da natureza. Entretanto, além de ameaças concretas à região como a contaminação por agrotóxicos e o desmatamento, a bacia do Juruena tem pelo menos 102 projetos de hidrelétricas, entre as que já estão em funcionamento, em construção e outras que ainda não saíram do papel.

De acordo com o planejamento energético do governo federal, o distrito de Fontanillas, que pertence à Juína, poderá ficar debaixo d’água se as hidrelétricas no Médio rio Juruena forem erguidas. “Fontanillas possui um ambiente frágil, em sua maioria composto por solo rochoso, sendo que qualquer alagamento seria catastrófico, uma vez que a água não tem para onde escoar ou infiltrar”, explica Cleiton Silvestrim, presidente da Associação de Moradores de Fontanillas. O distrito faz parte da história da região noroeste, porto de chegada dos colonizadores e local de construção da primeira escola do município. “A população tem uma relação direta com o rio, inclusive para lavar roupa e abastecer as casas com água, além dos povos ribeirinhos, pescadores e agricultores em seu entorno”, continua Silvestrim.

Diversas organizações e coletivos da região já vinham sentindo a necessidade de ampliar o debate sobre o desenvolvimento regional considerando o rio Juruena íntegro. Por este motivo, resolveram formar a Rede Juruena Vivo. “Com o Festival, a população é chamada a conhecer e reconhecer os potenciais do rio Juruena, refletir sobre a vida existente e valorizar cada vez mais. Inclusive, abre oportunidade aos interessados de discutir junto aos assentados, ribeirinhos, indígenas, técnicos, educadores, reunidos na Rede Juruena, melhorias que rumam para a construção de um futuro sustentável para a região”, afirma Liliane Xavier, militante no coletivo AACUARELA, que compõe a Rede Juruena Vivo.

Esta rede vem crescendo a cada ano como um espaço de trocas de informações, formação de pessoas conscientes e questionadoras sobre seus direitos coletivos e individuais. Segundo Silvestrim, ela pode contribuir também no auxílio à execução de propostas que valorizem as populações tradicionais e a manutenção do homem no campo. “Podemos tomar por base o potencial turístico local que vem sendo explorado de forma desorganizada e desordenada ‘com baixa consciência socioambiental’. Seria muito importante para a população local organizar o setor turístico como forma de valorização local”, opina o presidente da Associação de Moradores de Fontanillas.

“Nossa preocupação é levantar a importância deste rio que já contribuiu para a nossa colonização e a valorização da região pela questão cultural. Vamos deixar a sociedade falar e conversar. Esta é a forma que o município encontrou para chamar a atenção do rio e deixar a população decidir”, completa Leandro, da Secretaria de Educação e Cultura de Juína.

Serviço:   

Data: 9/10/2015, sexta-feira
Local: Casa de Retiro da Diocese de Juína

19h40 – Abertura: Painel com especialistas e convidados sobre recursos hídricos e desenvolvimento sustentável.

20h – Daniel Rondinelli Roquetti (USP)

20h30 – Francisco Machado (UFMT/MPE)

21h – Ivo Poletto (Campanha Nacional Energia para a Vida)

21h30 às 23h – Diálogo com o público.

Agenda cultural
10/10/2015, sábado
Local: Centro de Eventos de Juína

– A partir das 16h30 Exposição Fotográfica das Águas

– A partir das 17h Feira Livre e Mostra de Vídeos

– 20h Festival da Canção

– 22h Show de encerramento com o violeiro Victor Batista – Show Recital do Violeiro

Mais informações: http://www.redejuruenavivo.com