Guia de Comunicação popular: disponível para download

Lívia Alcântara

A Rede Juruena Vivo, em parceria com o Projeto Berço das Águas, lança o Guia de Comunicação Popular, um material de apoio para os comunicadores populares da sub-baciad do Juruena. Inspirado no mote do “Não odeie a mídia, seja mídia!” e estruturado no princípio do “Faça você mesmo”, o guia pretende dar continuidade ao processo de formação iniciado em 2018 para jovens indígenas, agricultores, estudantes e integrantes de organizações sociais. Acesse o material em pdf clicando aqui.

Design sem nome

Apresentação

O rio Juruena e seus afluentes são um berço de águas que abastecem povos indígenas, agricultores, ribeirinhos, e vários municípios. Seus cursos de água desaguam no rio Tapajós, compondo a bacia Amazônica. Buscando proteger esse território e desenvolver formas sustentáveis de vida, nasceu, em 2014, a Rede Juruena Vivo.

Sabendo da importância da comunicação em nossos dias e na defesa dos direitos, foram criados, em 2018, três grupos: os Núcleos Olhos d´Água. Compostos por indígenas, agricultores, assentados, estudantes e membros de associações, movimentos e sindicatos do Juruena, eles têm a função de cuidar da comunicação da Rede.  Para isso, têm participado de formações, apoiadas pelo projeto Berço das Águas III, com patrocínio da Petrobras Socioambiental. A ideia é que os moradores da bacia do Juruena possam contar suas próprias histórias.

Esta publicação foi preparada para estes núcleos e certamente pode ajudar outros comunicadores populares. Ela está desenvolvida na ideia do “Faça você mesmo!”, apropriada pela cultura punk , pelos midiativistas e pelos amantes de fanzines para afirmar que nós podemos produzir nossa própria comunicação.

Foto Henrique Santian

Foto: Henrique Santian/OPAN

Este guia de comunicação popular está dividido em três partes. Em “Comunicação e suas tretas” você encontra uma discussão, bem direta, sobre o contexto comunicacional brasileiro. Esta seção fala sobre as dinâmicas de poder, concentração midiática, mas também de diversidade e alternativas. Na segunda parte, “Faça você mesmo!”, três tutoriais dão dicas sobre jornalismo comunitário, produção de vídeos e uso estratégico das redes sociais para montar uma campanha digital.

Por fim, em “Continue pesquisando”, você encontra referências para se aprofundar mais nos temas abordados. Criamos também a seção “Moinho”, que ao longo desta publicação oferece exercícios didáticos.

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Geração de renda e valorização da sociobiodiversidade da Bacia do Juruena

Fabiane Oliveira Martins da Silva, Jessica França, Gesiel Souza de Holanda e Wesley Ribeiro Gomes da Silva – 3 novembro 2018, Juína, MT

Durante o primeiro dia do V Festival Juruena Vivo, a quadra do colégio São Gonçalo se transformou numa feira de apresentação de iniciativas procedentes de associações de pequenos produtores do Mato Grosso com troca e venda de produtos.

Na atividade batizada como “Intercâmbio e aproveitamento da Sociobiodiversidade no V Festival Juruena Vivo” esteve protagonizada por uma vintena de projetos que foram apresentados para o público assistente em forma de rodas de conversa.

O Jornal Juruena entrevistou alguns dos protagonistas desse intercâmbio que, além de explicar os detalhes dos seus produtos, mostraram o que representa esse trabalho na suas vidas cotidianas.

Foto 10_ Intercâmbio e aproveitamento da Sociobiodiversidade no V Festival Juruena Vivo. Foto_ Marcelo Munduruku.

Foto: Marcelo Munduruku

  1. María Alves Miranda faz parte da Associação Regional das Produtoras Extrativistas do Pantanal (ARPEP) na região de Cáceres. Sua associação trabalha com polpa de  pequi, babaçu, baru e vende os produtos brutos ou beneficiados em forma de doces. As 30 mulheres na associação comercializam seus produtos nas feiras dos assentamentos da região. “A gente aprendeu que usando os produtos da natureza e sem destruir o meio ambiente, podemos trazer uma alimentação saudável para casa”, afirma Alves.

 

  1. María Vitória e Sario trabalham na Associação de pequenos agricultores e técnicos do Araguaia, para fortalecer a agroecologia com foco no sudoeste da região. O primeiro eixo de trabalho é o quintal produtivo, que funciona com a mão de obra da família com o intuito de garantir a segurança alimentar. A associação fornece assistência técnica, apoio a outros projetos como indústrias de polpa de frutas e, além disso, tem viveiros, produz mudas, sistemas de captação de água de chuva e promove sistemas agroflorestais.

 

  1. Leonel é membro da Fase, que atua em seis estados do Brasil, além de outros cinco países. A fase começou em 1987 para trabalhar na conservação e troca de sementes crioulas com o objetivo de promover a segurança e soberania alimentar para as comunidades com uma perspectiva de sustentabilidade. “Nós somos animadores de processos de desenvolvimento sócioambiental”, afirma Leonel.

 

  1. Cirio César Custodio faz parte da ONG Instituto Ouro Verde, que inclui vários projetos como o Sementes do Portal, distribuição de sementes florestais para a recuperação ambiental; Banco Raízes, um banco comunitário que concede microcréditos aos agricultores; Mulheres de Fibra, de produção de artesanatos; e o Sistema de Comercialização Solidária (Siscos). O Siscos pretende aproximar os agricultores familiares aos consumidores através de um site onde os produtos são vendidos com preços justos, respeitando o trabalho dos produtores. Participam 29 famílias agricultoras e o objetivo é valorizar o comércio justo e responsável. “A economia solidária está além da troca econômica, é um agente que valoriza a política, a arte e os saberes regionais”, explica Cirio.
Livia Alcantara - V Festival Juruena Vivo (80)

Foto: Lívia Alcântara/OPAN

  1. Ivanildes Wata Rikbaktsa fabrica artesanatos em Juína, onde ela mora. Ela utiliza coco, sementes de pau brasil e outras sementes nativas de Mato Grosso para fabricar colares, brincos e adereços variados. Os objetos produzidos são vendidos em feiras, eventos e festas culturais. “Este artesanato faz parte do meu dia a dia”, conta Ivanildes.
Foto 6_ Ivanildes Wata Rikbaktsa - artesanato. Foto Jessica França

Foto: Gesiel Souza de Holanda.

  1. Nilsa Serafim Oliveira Barros faz da parte associação Mulheres Esperança em Cotriguaçu. Elas trabalham com doces feitos de cacau e produzem artesanatos. A associação conta com seis mulheres que vendem a produção de casa em casa ou através do site Siscos (Sistema de Comercialização Solidária). ‘‘A associação se mantém na união e na vontade de vencer’’ afirma a associada Nilsa.
Foto 9_ Nilsa Serafim Oliveira Barros, da associação Mulheres Esperança em Cotriguaçu. Foto_ Gesiel Souza de Holanda_

Foto: Gesiel Souza de Holanda.

  1. Rute Aparecida participa na Associação de Mulheres Cantinho da Amazônia (AMCA) da cidade de Juruena. As integrantes desta associação trabalham com castanha-do-Brasil, a partir da qual produzem farinha, macarrão e bolacha, tudo da castanha. A associação tem 32 trabalhadoras que vendem os produtos em Cuiabá, Cotriguaçu, Rondonópolis e outras cidades. ‘’Cada uma de nós tem vontade de vencer’’ afirma Aparecida.
Foto 11_ Rute Aparecida participa na Associação de Mulheres Cantinho da Amazônia (AMCA). Foto_ Gesiel Souza de Holanda

Foto: Gesiel Souza de Holanda.

  1. Helena de Jesus Moreira é uma das integrantes da Associação de Produtores Feirantes de Cotriguaçu (APROFECO). Ela trabalha com óleo de babaçu e copaíba, creme para pele, balaio de buriti, coité, mel de jataí, propolis e pimenta do reino. Seus produtos são vendidos na feira municipal de Cotriguaçu. “A natureza fornece meu sustento’’, conta Helena.
Foto 12_ Helena de Jesus Moreira é uma das integrantes da Associação de Produtores Feirantes de Cotriguaçu (APROFECO). Foto_ Gesiel Souza de Holanda.

Foto: Gesiel Souza de Holanda.

  1. Maria Nazaré de Oliveira Almeida e outras cinco mulheres formaram uma associação em Colniza que fabrica produtos do babaçu. “Ninguém conhecia, nem mesmo eu conhecia o valor que tinha o babaçu!”, conta Maria Nazaré. Ela destaca não somente os benefícios à saúde do babaçu, mas também o empoderamento que o trabalho trouxe às mulheres. Elas também produzem derivados de açafrão, urucum e cacau.

 

  1. Natan José Campos de Oliveira, jovem de 18 anos da Comunidade Capão Verde localizada em Poconé, faz parte de uma das famílias que produzem banana chips, além de outros derivados da fruta como farinha e bala. Essa produção tem como objetivo erradicar o êxodo rural que tem atingido a comunidade através da geração de renda local, mantendo assim os jovens nesta região. Para tal, eles contam com apoio de organizações como a FASE, o SEBRAE e algumas universidades próximas, além da comercialização dos produtos em feiras de agricultura familiar e de artesanato.

 

  1. Verediana Viera atua como Presidenta da Associação de Coletores e Coletoras de castanha-do-Brasil no Assentamento Juruena, no município de Cotriguaçu (MT). Eles trabalham no extrativismo em castanhais de áreas particulares do município. Essa atividade é possível graças às parcerias e a concessão de coleta por parte dos proprietários. Como contrapartida, o grupo cuida da natureza nessas áreas. “A associação de coletores é um elo de sustentabilidade e diálogo entre as pessoas e a floresta”, afirma Verediana.  
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Foto: Wesley Ribeiro Gomes da Silva.

Jovens indígenas apostam na comunicação para contar suas realidades

Lívia Alcântara

“O professor falou da oficina de comunicação na escola e eu sou apaixonada por mexer com câmera, gravar com o celular. Tinha um monte de gente querendo participar, fizemos um sorteio e caiu o meu nome”, conta Aline Janaína, 15 anos, da etnia Manoki.

Aline vive na aldeia Cravari, perto do município de Brasnorte (MT) e é parte da turma de 25 indígenas que participam das formações em comunicação, no noroeste de Mato Grosso, oferecidas pelo Projeto Berço das Águas, patrocinadas pela Petrobras Socioambiental e pelo Governo Federal.

Foto Henrique Santian (5)

Oficina de Fotografia durante o V Festival Juruena Vivo, Juína – MT. Foto: Henrique Santian/OPAN

Dois módulos do curso já foram concluídos, um focado no uso das redes sociais e outro na produção de jornal. A última etapa, de audiovisual, acontecerá em junho deste ano. Em cada encontro, durante três dias, os participantes têm acesso a técnicas de comunicação e são desafiados a produzirem posts para as redes sociais, jornais e vídeos a partir de suas realidades.

Márcio Jorfi Siraun, 30 anos, professor da Escola Estadual Indígena de Educação Básica Juporijup da aldeia Tatuí, Terra Indígena Kayabi Apiaká, conta que a oficina o ensinou a postar fotos nas redes, a usar as hashtags e também a ser crítico com o que se lê: “aprendemos, nesta etapa de jornalismo, a pesquisar a fonte de informação. Não pegar qualquer coisa e ler sem saber de onde vem”. Aline, assim como Márcio, não cai mais em fake news: “tem que pesquisar antes, olhar a data de quando foi publicado, se é real a postagem. Eu não compartilho mais coisas que eu não sei de onde vem”, conta ela.

Outro participante, Rogederson Natsitsabui Rikbakta, 25 anos, da etnia Rikbaktsa, está terminando um curso profissionalizante de técnico em meio ambiente. Ele explica que não teve dificuldade com a tecnologia em si, porque está acostumado com o celular, mas escrever foi um desafio: “eu me interessei em falar sobre as usinas hidrelétricas porque é uma preocupação que está afetando muito a gente aqui. Dar a opinião foi fácil, mas na hora de organizar o texto, de digitar, foi a dificuldade”. Sua percepção sobre o que é um jornal foi completamente alterada. Antes da oficina de jornalismo ele achava que jornal era tudo igual: “ao longo do curso eu percebi que tem entrevista, notícia, reportagem, muitos formatos jornalísticos dentro de um jornal”.

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Indígenas analisam a primeira edição do jornal Juruena em Foco para produzirem sua versão. Aldeia Curva, Terra Indígena Erikpaktsa. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

Além dos jovens indígenas, outros integrantes da Rede Juruena Vivo também participam das oficinas. A Rede reúne agricultores familiares, movimentos sociais, ONGs, poder público, pesquisadores, coletivos e estudantes da região da bacia do Juruena preocupados com o desenvolvimento sustentável da região.

O objetivo das oficinas é que os comunicadores populares possam assumir a alimentação dos canais da Rede Juruena Vivo (Site, Facebook e Twitter) e compartilhar ali suas realidades locais.  Valdeilson Jolasi, 21 anos, do povo indígena Manoki, entende que este objetivo já está sendo cumprido: “a oficina está me ajudando a divulgar a cultura do meu povo e a luta dos povos indígenas”.

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Cobertura audiovisual do V Festival Juruena Vivo. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.