Juruena Vivo, Amazônia Viva

Cerca de 150 pessoas participaram do 6ª Festival Juruena Vivo (FJV), que aconteceu entre os dias 24 a 27 de outubro na Comunidade de Pedreira e Palmital, a 30 km da cidade de Juara-MT. Com o tema “Juruena Vivo, Amazônia Viva”, o evento trouxe para o debate a importância das águas do Juruena na composição da bacia amazônica, promoveu um encontro sobre pesca e outro sobre comunicação. 

 

O Festival, como um momento de discussão anual da Rede Juruena Vivo, possui também um caráter festivo. Foi marcado por rodas culturais, baile e uma feira de artesanatos e produtos da biodiversidade, que finalizou o evento no centro de Juara. Participaram dos quatro dias de evento diferentes povos indígenas, agricultores, extrativistas, organizações sociais, além de universitários e pesquisadores. 

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Abertura do 6º Festival Juruena Vivo. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

“Este Festival é importante para a afirmação da luta, para a visibilidade da comunidade”, defende Michel de Andrade, mestrando em geografia e que acompanha a situação das famílias que vivem na comunidade de Pedreira e Palmital frente ao projeto hidrelétrico de Castanheira, que a ameaça.  

 

Castanheira e as outras hidrelétricas

As famílias que vivem em Pedreira e Palmital são pequenos e médios produtores de leite e gado de corte, que possuem roças de quintais, criação de animais como porcos, galinhas, carneiros para consumo e venda no mercado local. Vivem na beira do rio Arinos – o mais piscoso da bacia do Juruena – com o qual mantém uma relação vital. 

 

“Este rio é tudo para nós, chega final de semana e você não vai para a cidade, vai para a beira do rio, vai lá fazer um almoço… Vem os amigos da cidade e você vai para a beira do rio, ninguém fica em casa”, relata Dona Genir Piveta, moradora de Pedreira há 30 anos. Para ela, o grande problema do projeto de construção da hidrelétrica neste momento é a garantia dos direitos dos moradores à informação. “Eu quero saber o que vai acontecer comigo primeiro antes da usina sair […]. Você deita na cama e pensa ‘até quando eu vou ficar aqui? E se este empreendimento sair, para onde eu vou?’”. A moradora conta que outra grande insegurança é não saber se pagariam um valor justo por sua propriedade.

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Dona Genir, moradora de Pedreira no rio Arinos. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

Essa situação de Dona Genir ilustra um dos muitos casos em que populações indígenas, extrativistas, ribeirinhas e rurais estão sendo afetadas por empreendimentos de infraestrutura no noroeste mato-grossense. Um levantamento realizado pela Operação Amazônia Nativa em 2019 identificou 138 usinas na bacia do Juruena, sendo 32 em operação, 10 em construção e 96 em fase de planejamento. 

 

Dineva Maria Kayabi, professora indígena da aldeia Tatuí, na Terra Indígena Apiaká Kayabi, levou para o Festival sua preocupação com a construção de uma hidrelétrica no rio dos Peixes, que banha sua comunidade. “Para nós é um rio muito sagrado, de lá o meu povo retira o seu sustento. Lá tem nossa cachoeira sagrada (Salto Ytu’u), que também está em risco com a construção de hidrelétrica”. 

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Feira de artesanatos indígenas e produtos da sociobiodiversidade. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

Os encontros da Rede Juruena Vivo têm servido para o compartilhamento dessas experiências de ameaças sofridas pelos moradores da região. Juarez Paimy, da etnia Rikbaktsa, alertou para a possibilidade de seu território ser impactado por 11 grandes hidrelétricas e destacou a importância da participação da população nos processos de tomada de decisão e gestão hídrica. “Eu vejo que a gente conseguiu que fossem realizadas as audiências públicas, a gente queria ser consultado pela equipe técnica que ia fazer os estudos e, muitas vezes, estes não chegavam até os povos. Queriam fazer os projetos de empreendimentos de PCHs e UHEs no Juruena sem olhar para a gente”. 

 

Em um contexto com tantas barragens planejadas para a bacia do Juruena, as comunidades discutiram o Projeto de Lei 668/2019, enviado pelo governador de Mato Grosso à Assembleia Legislativa, que propõe, entre outras mudanças, a chamada cota zero*. Se aprovado, afetaria toda a cadeia da pesca, pois proíbe o armazenamento, a comercialização e o transporte de pescado por pescadores amadores e profissionais por cinco anos Tal medida atingiria diretamente os pescadores artesanais e profissionais que dependem da pesca para sobreviver, além do comércio ligado ao setor. Este foi um dos temas do I Encontro de Pesca do Juruena, importante momento dentro da 6ª edição do Festival.

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Compartilhamento de experiências durante o 6º Festival Juruena Vivo. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

I Encontro de Pesca do Juruena

 

O evento reuniu diferentes populações que mantém uma relação com a pesca na bacia do Juruena para informar sobre as políticas de pesca e discutir ferramentas de governança dos territórios pesqueiros. Para Ricardo Carvalho, engenheiro de pesca da OPAN, essas populações não têm tido acesso as alterações propostas pelo poder público. “Ficou claro no encontro que poucas pessoas sabiam sobre essa proposição da ‘Lei do Cota Zero’, e as que haviam ouvido falar, nem sabiam do que se tratava de fato”, explicou. 

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Encontro da Pesca. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

Além a regulamentação da pesca em Mato Grosso, discutiu-se alguns mecanismos de participação popular na gestão dos recursos pesqueiros, como os protocolos de consulta, incidência legislativa e a participação Conselho Estadual de Pesca do Estado de Mato Grosso (Cepesca). 

 

Para quem vive da pesca, qualquer interferência na atividade precisa ser analisada pela população que dela vive. Os protocolos de consulta, mecanismos de defesa coletiva de povos tradicionais para seus territórios e modos de vida, foram um desses instrumentos em debate. Pescadores de Santarém-PA, por exemplo, quando se viram diante do projeto de implantação de um porto graneleiro no Lago do Maicá, elaboraram um documento para dizer como e quando deveriam ser consultados em caso de interferência em suas áreas. Tal ferramenta é garantida pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário.

 

Para além disso, outro problema tem sido restrições às áreas de pesca por empresários. Josemar Alves Durães, do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP), abordou este desafio enfrentado por muitos de seus companheiros. Desde 2012, o MPP luta por uma lei de regularização do território das comunidades tradicionais pesqueiras. “Os territórios da pesca já existem desde sempre, eles só não são respeitados. A pesca artesanal e de subsistência é o que garante 70% do pescado do mundo”, defendeu Josemar para as comunidades do Juruena. 

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Josemar Alves Durães do Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

O evento discutiu também possibilidades de incidência no Cepesca e a formação de um comitê da bacia do Juruena. As comunidades presentes no Festival escreveram, ainda, uma carta ao final do evento, que marca um posicionamento crítico com os projetos de hidrelétrica previstos para a região e exige o arquivamento do projeto da hidrelétrica Castanheira. “A Rede Juruena Vivo requer que o projeto da UHE Castanheira seja imediatamente arquivado porque os próprios estudos já revelaram que este empreendimento é inviável para a economia da cidade de Juara e todos os povos que habitam seu entorno”.

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6º Festival Juruena Vivo. Foto Lívia Alcântara/OPAN

*Em 14 de novembro a votação do Projeto de Lei 668/2019 foi suspensa.

**Colaboraram na realização de entrevistas para esta matéria: Márcio Jorfi, Valdeilson Manoki, Tarsila Menezes, Rogenderson Natsitsabui, Umenã Myky, Minã Myky, Ellen Rodrigues, Érica Rodrigues.

 

Carta aberta – VI Festival Juruena Vivo

Comunidade de Pedreira e Palmital – Juara, 27 de outubro de 2019.

Nós, povos indígenas das etnias Apiaká/Mairóbi, Kawaiwete, Manoki, Myky, Munduruku, Nambikwara, Paresi e Rikbaktsa, junto com moradores da comunidade de Pedreira e Palmital, estudantes, associações, agricultores familiares, extrativistas, representantes de organizações não governamentais e movimentos sociais, reunidos de 24 a 27 de outubro de 2019 no VI Festival Juruena Vivo, queremos expressar grande preocupação com a situação política pela qual atravessa o Brasil, especialmente com relação à restrição de direitos sociais, ambientais e humanos. Temos vivenciado os efeitos do avanço de empreendimentos de infraestrutura que não respeitam nosso direito de uma participação direta, digna e legal. Ao mesmo tempo, observamos o desmonte das estruturas de governo que deveriam atender aos povos indígenas e às comunidades tradicionais, bem como à garantia de proteção aos nossos territórios, o que tem agravado o cenário de incalculáveis prejuízos ao bem-viver.

Diante disso, e conhecendo de perto a luta da comunidade de Pedreira e Palmital frente aos impactos do projeto hidrelétrico de Castanheira – considerado pelo governo federal uma prioridade, mas que reúne uma série de irregularidades, violações e problemas ambientais – a Rede Juruena Vivo se coloca como um coletivo disposto a apoiar o movimento de resistência a este empreendimento. Assim como os povos indígenas, os moradores de Pedreira e Palmital exigem que seu direito à consulta e consentimento livre, prévio e informado seja garantido e respeitado, como comunidade tradicional. A partir deste fato, a Rede Juruena Vivo requer que o projeto da UHE Castanheira seja imediatamente arquivado porque os próprios estudos já revelaram que este empreendimento é inviável para a economia da cidade de Juara e todos os povos que habitam seu entorno.

Sabemos que a UHE Castanheira não é o único projeto que ameaça a bacia do Juruena. Existem mais de 130 hidrelétricas inventariadas para a região, sem contar com empreendimentos de mineração, desmatamento e outras pressões ao meio ambiente e às populações que aqui vivem. O conjunto desses impactos nunca foi avaliado e não representa a forma de desenvolvimento que atende aos nossos anseios. Entendemos a necessidade de melhoria nas condições socioeconômicas locais, mas, definitivamente, a imposição de uma usina como Castanheira não é o caminho. Assim, reiteramos que sejam incentivadas alternativas de produção energética menos impactantes, dando às comunidades mais autonomia.

A Rede Juruena Vivo, através dos grupos que a compõem, pode dar diversos exemplos de iniciativas de produção sustentáveis e de utilização responsável dos recursos naturais em seus rios e florestas, que deveriam receber mais apoio e valorização. Acreditamos que, além disso, qualquer projeto de desenvolvimento regional deve primar pelo respeito ao direito de participação social nas tomadas de decisão. Para isso, reforçamos que a constituição de um comitê de bacia para o Juruena poderia ser um espaço muito importante para este exercício de cidadania.

Como dependemos dos rios limpos e saudáveis para a nossa sobrevivência, consideramos que o projeto de lei elaborado pelo governador de Mato Grosso (PL 668/2019), que estabelece a cota zero para transporte de pescado no estado por cinco anos, é extremamente prejudicial às comunidades e não trará melhorias para o meio ambiente. Muito pelo contrário. Este projeto vai criminalizar e fragilizar a vida dos pescadores, facilitando, por sua vez, a instalação de mais usinas hidrelétricas. Essas, sim, são as principais responsáveis pela diminuição e até extinção dos peixes em nossos rios.

Portanto, a Rede Juruena Vivo se manifesta mais uma vez em defesa da integridade da bacia do Juruena e dos povos que aqui habitam, como um grupo que pode contribuir com a construção de políticas que contemplem o interesse coletivo pautado no respeito à diversidade e ao meio ambiente.

Assinam:
ASSOCIAÇÃO ACAIM POVO APIAKÁ JUARA MT
ASSOCIAÇÃO BARRANCO VERMELHO – ASBV
ASSOCIAÇÃO DACÊ DO BAIXO TELES PIRES
ASSOCIAÇÃO DE COLETORES/COLETORAS DE CASTANHA DO BRASIL DO P.A JURUENA – ACCPAJ ASSOCIAÇÃO DE MULHERES RIKBAKTSA – AIMURIK ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES/AS E VERANISTAS DE FONTANILLAS ASSOCIAÇÃO DOS PRODUTORES DE PEDREIRA E PALMITAL – ASPEPAL ASSOCIAÇÃO INDÍGENA RIKBAKTSA – ASIRIK ASSOCIAÇÃO KAWAIWETÉ DO RIO DOS PEIXES ASSOCIAÇÃO TSIRIK ASSOCIAÇÃO WAYPJATAPJA MANUNKJEY COLETIVO AACUARELA DE JUÍNA MT COLETIVO PROTEJA AMAZÔNIA FONASC-CBH/MT FÓRUM TELES PIRES INSTITUTO CENTRO DE VIDA INSTITUTO MUNDURUKU DO RIO DOS PEIXES MOVIMENTO DOS ATINGIDOS/AS POR BARRAGEM/MT MOVIMENTO DOS PESCADORES E PESCADORAS ARTESANAIS DO BRASIL OPERAÇÃO AMAZÔNIA NATIVA

 

Jornal Juruena em Foco 3ª edição

A terceira edição do jornal Juruena em Foco, produzido por comunicadores da Rede Juruena Vivo já está no ar. Ela traz matérias produzidas por diferentes povos indígenas abordando temas como educação, o uso ervas medicinais, festas, rituais e pinturas indígenas.

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Esta edição, de setembro de 2019, é resultado da oficina de introdução ao jornalismo comunitário, que aconteceu entre os dias 19 e 21 de março de 2019 na Aldeia Curva, Terra Indígena Erikpaktsá, Mato Grosso.

Expediente:
Edição: Luna Gámez e Lívia Alcântara.
Jornalista responsável: Lívia Alcântara (16821/MG).
Repórteres: Adelaine Pikzaze, Adriano Tawandé, Aline Manoki, Geovane Ikomy, Hernandes Morimã, Iranildo Tawandé, Jucéli Manitsi, Larissa Waikima, Lenice Wykmaha, Márcio A. Silva, Márcio Rikbakta, Minã Myky, Oziel Rikbaktsa, Rodrigo S. Mendes, Rogederson Natsitsabui, Tainá Rikbaktsa, Umenã Myky, Valdeilson Manoki, Valdir Maemytsa, Wanessa Atsaba.
Projeto gráfico e Diagramação: Talita Aquino.
Equipe Berço das Águas: Artema Lima, Tarcísio Santos, Edemar Treuherz, Liliane Xavier, Lívia Alcântara.

Outras edições:

1ª Edição do jornal Juruena em Foco: fevereiro de 2019

2ª Edição do jornal Juruena em Foco: maio de 2019

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Jornal Juruena em Foco 2ªed.

A segunda edição do jornal Juruena em Foco, produzido por comunicadores da Rede Juruena Vivo traz matérias escritas por diferentes coletivos, jovens e moradores de comunidades de Juína, Juara e Fontanillas.

Download: JURUENAEMFOCO_ED02

A publicação, de maio de 2019, aborda temas como o uso de agrotóxicos e orgânicos na bacia do Juruena, a geração de renda a partir da castanha, a regularização fundiária de Fontanillas. Apresenta uma entrevistas com as fundadoras do Coletivo Mulheres que Movem Juína e discute a construção da hidrelétrica Castanheira, além da recuperação de rios. A publicação traz ainda textos de opinião e uma resenha sobre o livro Paisagens Ancestrais do Juruena.

Esta publicação é resultado da oficina de introdução ao jornalismo comunitário oferecida pela Rede Juruena Vivo em parceria com o projeto Berço das Águas, que aconteceu entre os dias 15 a 17 de março de 2019 em Juína, Mato Grosso.

Expediente:
Edição: Luna Gámez e Lívia Alcântara.
Jornalista responsável: Lívia Alcântara (16821/MG).
Repórteres: Carolina de Oliveira, Cleiton Silvestrim, Daniela Tavares , Fernanda Taborda, Jair Volpato, João Graeff, Joice Urtado, Larissa Silva, Maria Aparecida de Oliveira, Melissa Vieira, Paula de Farias, Tharlls Magalhães, Vivian Fernandes, Willian Ribeiro.
Projeto gráfico e Diagramação: Talita Aquino. Equipe Berço das Águas: Artema Lima, Tarcísio Santos, Edemar Treuherz, Liliane Xavier, Lívia Alcântara.

Confira aqui a 1ª Edição do jornal Juruena em Foco

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Confira o vídeo do V Festival Juruena Vivo I 2018

Cerca de 200 pessoas se reuniram em Juína, de 1 a 4 de novembro de 2018, durante o V Festival Juruena Vivo. O evento juntou indígenas, agricultores e organizações civis da região.

Nesta edição, teve como uma de suas principais atividades a realização do Intercâmbio Sociobioprodutivo, que trouxe para o diálogo experiências de beneficiamento de frutas da região, artesanato, projeto de economia solidária, dentre outras (confira cada uma delas aqui).

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Comunicador popular do Juruena em Ação. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

Toda a atividade contou com uma cobertura completa dos nossos comunicadores populares, que produziram a primeira edição do jornal Juruena em Foco e este vídeo sobre a diversidade sociobioprodutiva do Juruena.

O vídeo é uma realização da Rede Juruena Vivo, do Projeto Berço das Águas, da Cambará e patrocinado pela Petrobras Socioambiental.

 

 

Indígena de MT abre evento em Berlim sobre hidrelétricas

Lívia Alcântara

Marta Tipuici, da etnia Manoki, abre nesta quinta-feira, 9 de maio, o evento “Hidrelétrica, mudança climática e os objetivos de desenvolvimento sustentável”* na capital da Alemanha. A conferência, organizada pela organização não governamental alemã Gegenstromung, coloca em discussão os efeitos econômicos,  sociais e ambientais das hidrelétricas e pretende endereçar questões e alertas para o Congresso Mundial de Hidrelétricas, que acontecerá em Paris de 14 a 16 de maio.

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Marta Tipuici na abertura da Conferência Hidrelétrica, mudança climática e os objetivos de desenvolvimento sustentável.

 

Em sua apresentação, Marta Tipuici falou sobre o impacto das hidrelétricas para os povos indígenas. Ela é representante da Rede Juruena Vivo (RJV), que atua por alternativas de desenvolvimento na sub-bacia do Juruena, no noroeste do estado de Mato Grosso. Um levantamento, realizado pela Operação Amazônia Nativa para a RJV em 2019, identificou 138 usinas na bacia do juruena, sendo que dessas 32 estão em operação, 10 em construção e 96 em fase de planejamento**.

“São as hidrelétricas, em especial as micro e pequenas usinas espalhadas pela bacia do Juruena, que sustentam a produção de muitas empresas produtoras de grãos para exportação. Nossos parceiros na Europa têm um papel fundamental em alertar compradores e investidores sobre os impactos sofridos pelos povos indígenas”, declarou a jovem indígena.

Para além de Marta Tipuici, Andreia Fanzeres, da Operação Amazônia Nativa, organização indigenista que atua em Mato Grosso e Amazonas, também participa do evento, discutindo hidrelétricas e direitos humanos. A mesa composta por ela e representantes de outros países aborda os limites entre crescimento econômico e as consequências sociais dos empreendimentos.

Fanzeres é uma das responsáveis pelo levantamento das usinas no Juruena e enfatiza que um grandes dos desafios é o acesso a informações: “apesar de algumas melhorias no  sistema de transparência das informações ambientais no estado, ainda há muito o que ser aprimorado quanto aos dados sobre empreendimentos que estão sendo autorizados ou estão operando. Qualquer pessoa deveria conseguir acessar facilmente essas informações, saber o que está sendo planejado para sua localidade e poder participar dos processos que, no final, vão definir o desenvolvimento regional.”

A conferência contou com representantes do Brasil, Colômbia, Myanmar, cientistas, representantes da indústria e organizações não governamentais da Alemanha. Segundo Heike Drillish, da ONG GegenStromung, que organiza o evento, apesar dos impactos das hidrelétricas serem conhecidos desde os anos 80, na Europa muitas pessoas ainda acreditam que as usinas hidrelétricas são uma opção limpa para geração de energia no contexto das mudanças climáticas. Foram esta e outras questões, como os efeitos das usinas sobre as mudanças climáticas e as alternativas sustentáveis de geração de energia, que estiveram em debate.

“Este é um espaço de diálogo com outros movimentos de países diferentes, e que trazem experiências importantes nesse cenário de retirada de direitos e mudanças climáticas”, afirmou Marta Tipuici.

 

*Hydropower, Climate Change and the Sustainable Development Goals

**Esse levantamento é fruto de um esforço para obtenção de informações sobre os empreendimentos de infraestrutura no Juruena e há um grau de incerteza de aproximadamente 15% em virtude de problemas na transparência das informações públicas sobre licenciamento ambiental em mato grosso.

I Encontro de Mulheres da Rede Juruena Vivo: agricultoras, indígenas e mulheres da cidade debatem participação e geração de renda.

Larissa Grazielle Rocha., Paula Cristina de Farías Capitulino, Melissa Gabrieli da Silva Vieira, Aline Janaína Manoki, Lívia Alcântara

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I Encontro de Mulheres da Rede Juruena Vivo. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

É crescente o número de mulheres à frente de movimentos sociais, associações e cooperativas. A participação delas na vida política, social e econômica foi o foco do I Encontro de Mulheres da Bacia do Juruena, que aconteceu em Juína – MT, de 12 a 14 de abril. Com o tema “Mulheres são como águas, crescem quando se juntam”, o evento foi organizado pela Rede Juruena Vivo e Projeto Berço das Águas, com patrocínio da Petrobras Socioambiental e parceira do Instituto Centro e Vida (ICV).

Cerca de 100 mulheres partilharam durante estes dias seus conhecimentos e suas conquistas. Estiveram presentes mulheres dos povos indígenas Apiaká, Munduruku, Rikbaktsa, Kayabi, Nambikwara, Myky, Manoki, Paresi, Arara, Cinta Larga, Yudja e Chiquitana. Além de representantes do Conselho Municipal da Mulher de Juína, do Coletivo Mulheres que Movem Juína, das comunidades rurais de Pedreia, Belém e Iracema e de mulheres das cidades de Juruena, Cotriguaçu e Cuiabá.

O primeiro dia foi marcado pelo debate sobre a história da conquista de direitos das mulheres e seus desafios. “Aqui em Juína, no âmbito político, as mulheres não estão tendo sua representatividade. A Câmara de Vereadores, na última eleição, não conseguiu eleger nenhuma mulher… Há muito, muito no que avançar”, ponderou Ernesta da Silva Araujo, que contou sobre a criação do Coletivo Mulheres que Movem Juína. Ernesta também é integrante do Conselho de Assistência Social e do Movimento de Mulheres Negras e trouxe, ao longo do encontro, preocupações sobre o contexto de ameaça dos lugares conquistados pelas mulheres.

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Mesa “Mulheres e geração de
renda: um diálogo sobre
associativismo, cooperativismo
e comercialização”. Foto: Lívia Alcântara/OPAN.

Alexandra Mendes Leite, indígena da etnia Chiquitano da Takiná, Organização de Mulheres Indígenas de Mato Grosso, apresentou o trabalho que a organização tem desenvolvido com a autoestima das mulheres indígenas. Sua própria experiência para sair da aldeia e participar de debates importantes para o seu povo foi um desafio. Ela conta que a primeira vez em que participou de um evento fora da aldeia foi através da igreja católica, quando foi a sorteada para ir em uma romaria. “Eu tinha um bebê de cinco meses. E eu disse: o meu bebe fica, o pai dele cuida. Esse foi o meu primeiro desafio: viajar e deixar o esposo e o filho”, relembra.

Conciliar a maternidade e os cuidados domésticos com a participação política, além de ganhar o aval da comunidade como representante, são alguns dos desafios colocados pelas mulheres presentes para participar de espaços de decisão, formação e debate. Embora as mulheres presentes no evento sejam exemplos daquelas que  têm conquistado estes espaços, este é um ponto a se avançar. Dineva Maria, da etnia Kayabi reclama:“a participação de nós mulheres é muito fraca no movimento indígena”. Para ela, sair da comunidade para participar de eventos é importante porque “cada vez que você sai, você consegue trazer alguma melhoria para seu povo, informação dos direitos…”.

Para além da participação política, outro tema do encontro foi o cooperativismo, associativismo e comercialização. Estiveram presentes diferentes representantes de experiências produtivas, que expuseram e venderam seus artesanatos, produtos derivados do babaçu, da banana, da castanha-do-Brasil e licores durante “Feira de Saberes e Sabores”, que aconteceu no centro na cidade de Juína.

As agricultoras e produtoras também contaram um pouco sobre suas trajetórias econômicas. Helena Moreira, Presidente da Associação de Feirantes de Cotriguaçu revelou: “através da agricultura sustentável, consegui fazer com que meu marido parasse de trabalhar para outras pessoas na cidade e ficasse comigo, tirando a nossa renda do nosso trabalho no campo”.

Feira de Saberes e Sabores realizada na Praça da Bíblia em Juína, MT.